Aniquilacionistas desenterram defunto exegético em Mateus 25:46
A paz do Senhor a todos os irmãos. Hoje trarei um velho assunto que novamente volta à tona: o "para sempre" do destino dos ímpios. Em uma publicação antiga, que pode ser vista AQUI, comentei que muitos aniquilacionistas haviam abandonado a ideia do tempo indefinido para o castigo eterno (tese na qual, enquanto a vida seria eterna, o castigo seria apenas por um período delimitado), optando antes pelo castigo eterno em suas consequências. Entretanto, como os argumentos dessa nova linha se mostraram frágeis, muitos estão retornando ao antigo argumento do tempo indefinido. Nesta publicação, farei questão de mostrar que interpretar o termo "eterno" em textos como Mateus 25:46 e Apocalipse 20:10 como mero tempo indefinido ou longo é praticamente inviável do ponto de vista exegético.
É verdade que muitos autores aniquilacionistas possuem certa base textual para sustentar que os termos aionios (no grego) e olam (no hebraico) podem indicar apenas um período delimitado de tempo. Eles costumam recorrer a passagens do Antigo Testamento em que a expressão "para sempre" está claramente associada à duração da vida humana, a uma linhagem ou a um evento com prazo de término. Observemos alguns desses exemplos em sua íntegra:
"Portanto a lepra de Naamã se pegará a ti e à tua descendência para sempre. Então saiu de diante dele leproso, branco como a neve."
2 Reis 5:27
"Eu desci até aos fundamentos dos montes; os ferrolhos da terra fecharam-se sobre mim para sempre; mas tu fizeste subir a minha vida da perdição, ó Senhor meu Deus." (Jonas 2:6)
"Então o seu senhor o levará aos juízes, e o fará chegar à porta, ou ao umbral da porta, e o seu senhor lhe furará a orelha com uma furadora; e ele o servirá para sempre." (Êxodo 21:6)
Diante de passagens como essas, a tese aniquilacionista busca argumentar que o "para sempre" bíblico não significa necessariamente uma eternidade sem fim, mas sim um longo tempo, indeterminado.
Em primeiro lugar, é bom deixar claro que este argumento de que "para sempre" é apenas um longo tempo no contexto do fim já foi descartado por muitos aniquilacionistas. A nova moda agora é dizer que, enquanto a vida do justo é eterna na duração, o castigo é eterno nas consequências. O que farei aqui é apenas mostrar por que a alegação de nossos amigos é um defunto que muitos tiram do túmulo na hora do desespero.
Agora indo ao assunto, gostaria de destacar que o caso Jonas é apenas um grave erro de interpretação. Lá em Jonas 2:6, "olam" é realmente "eternamente" mesmo. Jonas realmente pensava que ficaria submerso para nunca mais voltar; ele apenas declara que Deus o tirou desse destino permanente.
Mas por um lado, contextualmente, tanto "olam" no hebraico quanto "aion" no grego podem estar limitados a um período de tempo específico. Na realidade, até no português podemos ver a mesma situação. Por exemplo: "Meu pai sempre esteve comigo enquanto viveu". Este "sempre" não é pela eternidade, mas dentro de um período específico: "enquanto viveu". Da mesma forma, quando a pessoa serve a outra "para sempre" na lei de Moisés (Êxodo 21:6), isso engloba apenas o seu período de vida. E o mesmo poderíamos sugerir para outros casos, como o ex-servo de Eliseu e sua descendência (2 Reis 5:27).
Mas aqui alguém poderia sugerir: "Beleza, podemos fazer então o mesmo com o destino final do ímpio: 'o castigo é eterno enquanto ele durar', certo?" Errado! Vamos ver o contexto. Apocalipse 20:10 diz que o tormento é para sempre, mas antes deste "para sempre", a besta e o falso profeta já estavam lá há mais de mil anos (Apocalipse 19:20; 20:7-10), ou seja, um longuíssimo tempo. Qualquer raciocínio honesto, ao ver essa descrição, tenderá a entender como um tempo infinito. Na realidade, a própria estrutura leva também a isso: a expressão "dia e noite" traz a ideia de algo que não cessa (ou seja, é algo incessante e sem tempo de término).
Como o "para sempre" de Apocalipse vem após mil anos, o que resta é alegorizar tudo, mas a conta continua não batendo. Por exemplo, a punição do diabo em Apocalipse é com fogo e é eternamente; e, da mesma forma, a pena de Mateus 25:41 é com fogo, que é eterno. Seria, no mínimo, estranho entender uma punição como eterna, neste caso Apocalipse, e a de Mateus por um tempo longo, sendo que os dois "eternos" estão dirigidos à mesma pessoa, o diabo, e no contexto do fim. E o mais interessante: a mesma estrutura "lançar + fogo eterno" (Mateus 18:8; 25:41) é idêntica a "lançar + lago de fogo" (Apocalipse 20:15), mostrando que ambos os lugares são sinônimos escatológicos.
Uma refutação à tentativa de refutar a literalmente do lago de fogo pode ser vista aqui: O Lago de Fogo Não É Real?
Na tentativa de esquivar-se do peso do texto bíblico, alguns argumentam que o termo 'eterno' só se aplicaria enquanto o ímpio existir, alegando que um corpo não glorificado seria incapaz de suportar o tormento perpétuo no fogo. Contudo, essa objeção apresenta uma incoerência interna: os próprios defensores dessa tese (como na teologia adventista) admitem que, no juízo final, o fogo descerá do céu (Ap 20:9) e formará um mar de lava no qual os ímpios sofrerão conscientemente dentro dele por um período determinado até serem exterminados. Dentro de um mar de lava, a pessoa morre num milésimo de segundo, certo?
O texto bíblico, porém, desmantela essa premissa ao revelar que a besta e o falso profeta permanecem conscientes no lago de fogo mesmo após mil anos, mantendo a capacidade de sofrer no ambiente descrito por Jesus com 'choro e ranger de dentes' (Mt 13:42, 50). Isso demonstra que a preservação do ímpio no castigo não depende das propriedades naturais de um corpo humano, mas sim do ato soberano e sustentador de Deus por toda a eternidade.
Uma publicação relacionada: Os Ímpios Terão Corpos Glorificados?
Para se ter ideia, o argumento "das duas eternidades" já tem mais de mil e quinhentos anos e até agora nunca foi derrubado. Agostinho declarou no século IV (A Cidade de Deus, Livro XXI, Cap. 23) que, se é o mesmo adjetivo (aionios) qualificando dois substantivos na mesma frase em Mateus 25:46 (vida e castigo), é improcedente interpretar um como eterno enquanto o outro por apenas um período. Até hoje, utilizamos o mesmo argumento.
Por outro lado, os críticos do castigo eterno mudam a todo momento. Em uma hora, o castigo é por apenas um período determinado de tempo; por outra, é eterno em consequências; já em outra, na realidade a palavra grega "kolasis" deveria ser traduzida por outra com sentido aniquilacionista. Ou seja, quando há múltiplas versões para fundamentar uma tese principal ( o extermínio dos ímpios no fim), o sinal é que algo de errado não está certo.
Ainda sobre a simetria entre as duas eternidades, a falta de lógica do argumento aniquilacionista fica evidente quando olhamos para o quadro geral. No Novo Testamento, tudo o que se refere ao justo no contexto do fim é eterno: a vida, o reino (2Pe 1:11) e a herança (Hb 9:15). No entanto, quando o texto coloca o destino do ímpio em paralelo direto ao do justo (usando os mesmos termos e o mesmo cenário escatológico), os críticos tentam sustentar que o castigo, a vergonha e o tormento não são eternos. Ou seja: embora ambos estejam no mesmo contexto do fim e sejam apresentados em claro contraste, argumenta-se que um lado é infinito e o outro não. Essa contradição rompe completamente com a lógica do próprio texto.
Alguns sugerem que o termo só significa eterno quando é atribuído a Deus. Porém, a tese aniquilacionista de que a eternidade só se aplica ao que está ligado ao Ser de Deus carece de sustentação exegética. O uso bíblico do termo demonstra que a perpetuidade é frequentemente aplicada à continuidade de decretos de juízo sobre realidades não divinas. Em Jeremias 51, a Babilônia é sentenciada a uma "desolação eterna". O adjetivo qualifica a palavra "desolação", e esta cidade continua desolada até hoje? Sim, não é? Tomemos também como exemplo o Salmo 9:5: "Repreendeste as nações, destruíste os ímpios; apagaste o seu nome para todo o sempre". Nesse texto, o vocábulo 'olam é utilizado para qualificar a ação de apagar. A questão central é: essas nações ou cidades voltaram a existir ou continuam apagadas do mapa até hoje? Ora, se o estado de apagamento permanece e continua inalterado, então estamos diante de um apagamento genuinamente eterno.
Aliás, esse argumento de que o termo "eterno" só significa eterno quando está ligado a Deus é mais filosófico do que bíblico. Por exemplo, eu poderia simplesmente argumentar que tanto o fogo quanto o castigo e o tormento procedem de Deus, que é obviamente eterno. Então, seria mais uma prova do castigo eterno, justamente porque a sua procedência é o próprio Deus. Enfim, esse é inclusive um dos argumentos de muitos que defendem a visão tradicional: o castigo é eterno porque Deus é eterno. Se bem que eu não ligo muito para esse tipo de argumentação, pois ela foca mais na questão filosófica do que na exegese bíblica.
Em última análise, como defendeu Agostinho e sustentamos até hoje, a questão é exegética: assim como a vida é eterna em sua duração, o castigo é igualmente eterno. É o mesmo adjetivo qualificando dois substantivos. Portanto, as tentativas de fazer o texto dizer o que ele não diz estão fadadas ao fracasso. O argumento aniquilacionista é, de fato, um defunto que tentam incessantemente desenterrar, mesmo quando muitos já admitiram a sua insustentabilidade. Enquanto eles se veem forçados a reinventar desculpas ou ressuscitar refutações antigas, nós permanecemos firmes na defesa da verdade bíblica, pois ela é imutável.
Comentários
Postar um comentário