O tormento eterno e os termos bíblicos que denotam destruição

 


A paz do Senhor!

Sei que já fiz duas publicações relacionadas, mas hoje farei uma análise mais simples, tratando dos termos bíblicos que significam destruição ou morte no contexto do fim e da doutrina bíblica do tormento eterno. Em vez de procurar significados aleatórios para as palavras, mostrarei que não há nenhum problema em entender que os ímpios morrerão ou serão destruídos e, ao mesmo tempo, crer no castigo sem fim.

"Não temais aos que matam o corpo, mas não podem matar a alma; temei, antes, aquele que pode destruir na Geena tanto a alma como o corpo." (Mateus 10:28)

Um primeiro texto é Mateus 10:28. O termo grego "ἀπολέσαι/apólesai", presente na parte B do versículo, é indubitavelmente entendido como matar ou destruir. Em Mateus 2:13 e Mateus 2:16, a mesma palavra é usada no sentido claro de matar, pois Herodes procurava o menino Jesus para tirar-lhe a vida. O mesmo ocorre em Lucas 19:47, onde os principais sacerdotes e escribas buscavam Jesus para matá-lo.

Além disso, é coerente entender o versículo como uma progressão: matar o corpo (o que os homens podem fazer); não poder matar a alma; matar corpo e alma no inferno. Ou seja, o texto não está negando a morte, mas apontando para um tipo de morte que somente Deus pode executar, algo que ultrapassa completamente o poder humano. 

E indo ao entendimento do termo, Tertuliano, já entre o século 2 e 3, já dizia:

"Se, portanto, alguém supuser que a destruição da alma e da carne no inferno equivale a uma aniquilação final das duas substâncias, e não a um tratamento penal (como se fossem consumidas e não punidas), que se lembre de que o fogo do inferno é eterno, expressamente anunciado como uma pena eterna. E então reconheça que é justamente essa circunstância que torna essa morte sem fim mais temível do que um assassinato meramente humano, que é apenas temporal." (De Resurrectione Carnis, 35)

Obra de Tertuliano completa AQUI.

Mas é a renomada Exposição de Gil de Toda a Bíblia, por exemplo,comentando Apocalipse 20:14 que  vincula perfeitamente com texto de Mateus 10:28. O texto de Apocalipse afirma:

"E a morte e o hades foram lançados no lago de fogo. Esta é a segunda morte." (Apocalipse 20:14)

E Gil:

"Esta é a segunda morte, ou a destruição da alma e do corpo no inferno, que consistirá numa separação eterna de ambos de Deus e num senso contínuo de sua ira e desprazer."

O raciocínio de Gil é extremamente coerente: se tanto Mateus 10:28 quanto Apocalipse 20:14 estão no contexto do juízo final e ambos falam, direta ou indiretamente, de duas mortes, o mais lógico é entendê-los como sinônimos escatológicos. Em Mateus 10:28, Jesus distingue entre a morte do corpo e algo mais profundo (a destruição de corpo e alma no juízo); em Apocalipse 20:14, essa realidade é chamada de "segunda morte". Se o cenário é o mesmo e a progressão é a mesma, estamos diante da mesma verdade descrita com termos diferentes. Desde cedo essa leitura já estava presente na igreja, como se vê em Tertuliano, que entendia a segunda morte como a condição punitiva após o juízo. Assim, como também declara John Gill, a segunda morte deve ser compreendida como a separação definitiva de Deus, não como simples extinção.

E o padrão é impressionantemente consistente nas Escrituras. Em Ezequiel 37 (a visão do vale de ossos secos), o próprio texto define o que significa aquela "morte". Israel diz: "Nossos ossos se secaram, pereceu a nossa esperança; estamos de todo exterminados".  O povo não estava biologicamente inexistente. Estava exilado, humilhado, disperso (mas vivo). Ainda assim, Deus os descreve como mortos.

Aqui, morte é linguagem de separação, de ruptura pactual, de afastamento da terra, do templo, da presença manifesta de Deus. É um estado de alienação e desesperança. Tanto que a solução não é "recriar" Israel do nada, mas restaurá-lo: Deus promete abrir as sepulturas, fazê-los subir delas e trazê-los de volta à terra. Ou seja, a morte ali é a condição de abandono; a vida é a restauração da comunhão e da esperança.

O próprio capítulo explica a metáfora. Não se trata de inexistência, mas de um povo vivo que, por estar separado da sua herança e sob juízo, é considerado morto. Portanto, dentro do próprio Antigo Testamento, "morte" pode designar um estado de separação e não necessariamente aniquilação. Esse dado é fundamental para qualquer discussão posterior sobre o sentido teológico da morte.

Já no Salmos 88, o salmista, ainda vivo, declara estar "como os mortos", "como os traspassados que jazem na sepultura, dos quais já não te lembras, e que são excluídos da tua mão" (Sl 88:5).  No vocabulário bíblico, Deus "lembrar-se" é agir em favor; portanto, dizer que Deus não se lembra é expressar a sensação de abandono, de afastamento, de ruptura da comunhão. É morte como alienação, não como inexistência.

Esse mesmo padrão aparece de forma didática na parábola do filho pródigo em Evangelho de Lucas 15. O pai afirma: "Este meu filho estava morto e reviveu; estava perdido e foi achado". O filho nunca deixou de existir. Sua "morte" era a condição de separação da casa do pai, da comunhão, do relacionamento restaurador. Ao voltar, ele "revive", isto é, é reintegrado à comunhão.

Agora observe a força do argumento: em ambos os casos, morte não é cessação do ser, mas ruptura relacional. No Salmo 88, morte é sentir-se excluído da mão de Deus; em Lucas 15, morte é estar longe do pai. Vida, por sua vez, é restauração da comunhão.

Portanto, quando a Escritura fala de morte em dimensões espirituais e escatológicas, já existe um pano de fundo semântico claro: morte pode significar separação, exclusão, alienação da presença favorável de Deus. Isso não é uma invenção teológica tardia, é um padrão bíblico consolidado, que atravessa o Antigo e o Novo Testamento.

"Ele tomará vingança dos que não conhecem a Deus e dos que não obedecem ao evangelho de nosso Senhor Jesus; [9] os quais sofrerão a pena, a saber, a eterna destruição da face do Senhor e da glória do seu poder" (2 Tessalonicenses 1:8-9)

E se você pensa que isso é apenas uma construção teológica dos cristãos, saiba que até na literatura judaica datada da era apostólica também interpretava assim. Curiosamente, a mesma expressão grega para "eterna destruição", ὄλεθρον αἰώνιον (ólethron aiṓnion), usada por Paulo em 2 Tessalonicenses 1:9, que para mim seria o texto que, junto de Mateus 10:28, mais fundamentaria um conceito escatológico de extinção, é aplicada aqui para descrever o tormento eterno em uma obra judaica situada entre o primeiro e o segundo século da era cristã, que é 4 Macabeus. Confira o trecho de 4 Macabeus 10:10-15:

"10. 'Nós, tirano abominável, estamos sofrendo por causa de nossa piedade e virtude, 11. mas você, por causa de sua impiedade e sede de sangue, sofrerá tormentos incessantes.' 12. Quando ele também morreu de forma digna de seus irmãos, arrastaram o quarto, dizendo: 13. 'Quanto a você, não ceda à mesma insensatez de seus irmãos, mas obedeça ao rei e salve-se.' 14. Mas ele lhes disse: 'Vocês não têm um fogo quente o suficiente para me fazer ser covarde. Não, pela abençoada morte de meus irmãos, pela destruição eterna do tirano, e pela eterna vida dos piedosos, não renunciarei à nossa nobre irmandade.'"

Neste trecho, a "destruição eterna" do tirano é apresentada como uma punição sem fim, enquanto a vida eterna é destinada aos justos. Isso evidencia como, na época antiga, o conceito de tormento eterno e destruição eterna eram frequentemente usados como sinônimos tanto no meio cristão quanto no judaico.

No entanto, alguém bem-intencionado poderia argumentar que os "tormentos incessantes" se referem apenas ao sofrimento do tirano até sua morte, e não a um castigo eterno. Porém, é importante notar que em 4 Macabeus 13:14-15 o autor resolve praticamente essa dúvida, quando o texto diz:

"Não temamos aquele que pensa que nos está matando, pois grande é a disputa da alma e o perigo do tormento eterno que está diante daqueles que transgridem o mandamento de Deus."

E também se encontra em 4 Macabeus 12:11-12:

"Tirano profano, o mais ímpio de todos os ímpios, visto que recebeste de Deus coisas boas e também o teu reino, não te envergonhaste de assassinar os seus servos e torturar na roda os atletas da piedade? Por isso, a justiça reservou para ti um fogo e tormentos mais intensos e eternos, e estes, por todos os tempos, nunca te deixarão ir." (4 Macabeus 12:11-12)

O texto pseudoepígrafe pode ser visto na íntegra e no grego AQUI.

Logo, diante do exposto, fica nítido o porquê de, no Evangelho de Marcos 1:24, os demônios implorarem para não serem destruídos, inclusive utilizando a mesma construção verbal de Evangelho de Mateus 10:28 (apolesai, ἀπολέσαι) e, em Mateus 8:29, implorarem para não serem atormentados antes do tempo. Em um lugar a besta vai para a destruição (Apocalipse 17:8,11), e em outro ela é atormentada para todo o sempre (Apocalipse 20:10). Da mesma forma os ímpios, que atribulam o povo de Deus, receberão a eterna destruição, mas também terão sofrimento eterno (Apocalipse 14:10–11).

Isso porque, no presente momento, todos, inclusive os maus, ainda gozam de um certo favor (Mateus 5:45). Contudo, futuramente entrarão em um estado de completo abandono e separação da presença de Deus: o lago de fogo, que também é um tipo de morte (Ap 20:14).

Como vimos, entender o sofrimento eterno como sinônimo de destruição e morte (no sentido de exclusão, abandono e ruína) é totalmente consistente com toda a Bíblia, tanto no Antigo quanto no Novo Testamento. Essa visão também encontra eco na Patrística, na literatura judaica da era apostólica e no pensamento de grandes comentaristas, como John Gill. Em vez de tentarmos forçar significados isolados aos termos, o melhor caminho é fazermos uma análise teológica de toda a Palavra de Deus para ver como cada peça se encaixa perfeitamente. Que possamos sempre buscar esse entendimento completo e equilibrado das Escrituras.

Fiquem com Deus!


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