Fineias salvou a interpretação adventista de Levíticos 16??


A paz do Senhor a todos! Hoje trarei um tema especial: a tentativa de transformar a crença de que um dos bodes de Levíticos 16 seja uma representação do diabo (algo considerado por muitos uma heresia) em mero erro doutrinário. Analisarei o texto usado para essa defesa e buscarei a interpretação que se encaixe perfeitamente na ideia transmitida pela passagem, verificando se isso realmente "salva" ou não essa crença tão controversa.

Para quem não conhece, o Adventismo do Sétimo Dia interpreta um dos bodes de Levítico 16 (o bode emissário / para azazel) como uma representação de Satanás (Nisto Cremos, Capítulo 23). Na visão deles, assim como o sumo sacerdote confessava os pecados do povo sobre o bode e este os levava para uma terra deserta (Lv 16:21-22), Satanás também levará sobre si a culpa e a punição final pelos pecados dos salvos (O Grande Conflito, Cap. 41). Para nós, no entanto, toda a simbologia de carregar e expiar o pecado se aplica exclusivamente a Jesus (Is 53:4-6; 1 Pe 2:24; Hb 9:28); para o adventismo, nessa etapa específica do ritual, aplica-se ao diabo

O verdadeiro motivo desta publicação surgiu de um debate que assisti entre o teólogo adventista Ezequiel Gomes e um grande mestre presbiteriano (faço questão de deixar o vídeo logo abaixo). Aliás, o pastor presbiteriano demonstrou um conhecimento ímpar das Escrituras. Impressionava como ele dominava o assunto em detalhes! Ele não apenas argumentava, mas desconstruía, ponto por ponto, a visão oposta. Ficou tão evidente que o próprio Ezequiel reconheceu o excelente preparo do homem de Deus.

O ponto alto do debate é quando mostramos por que essa ideia beira a heresia. Ora, se o bode representa Satanás e é ele quem leva sobre si o pecado do povo, o diabo acaba virando um "co-redentor"! Por mais que tentem argumentar que Satanás levaria esses pecados apenas de forma punitiva, a Bíblia é claríssima ao dizer que Quem foi castigado e carregou a nossa culpa foi Jesus (Isaías 53:4-5). É o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo (João 1:29), e o próprio Cristo levou sozinho os nossos pecados em seu corpo sobre o madeiro (1 Pedro 2:24). O diabo não tem parte nenhuma na remoção da nossa culpa.

Mas aí Ezequiel cria algo novo, para no mínimo transformar seu pensamento num erro doutrinário. A gente vê que em todo o debate ele sempre esteve na defensiva, diferente de sua postura em outros debates. Ele usa o caso de Fineias para "provar" que a morte de um ímpio pode expiar pecados:

"6 E eis que veio um homem dos filhos de Israel e trouxe a seus irmãos uma midianita, à vista de Moisés e à vista de toda a congregação dos filhos de Israel, chorando eles à porta da tenda da revelação. 7 Vendo isso Fineias, filho de Eleazar, o filho de Arão, sacerdote, levantou-se do meio da congregação e tomou uma lança na sua mão; 8 e foi após o homem israelita até à tenda e os atravessou a ambos, ao homem israelita e à mulher, pelo seu ventre; então, a praga cessou de sobre os filhos de Israel. 9 E os que morreram daquela praga foram vinte e quatro mil. 10 E falou o Senhor a Moisés, dizendo: 11 Fineias, filho de Eleazar, o filho de Arão, sacerdote, desviou a minha ira de sobre os filhos de Israel, pois foi zeloso com o meu zelo no meio deles; pelo que com o meu zelo não consumi os filhos de Israel. 12 Portanto, dize: Eis que lhe dou a minha aliança de paz; 13 e a sua descendência terá a aliança do sacerdócio perpétuo, porquanto teve zelo pelo seu Deus e fez expiação pelos filhos de Israel." (Números 25:6-13).

Para entendermos melhor Números 25, vale apresentar o significado etimológico das palavras. Por exemplo, o termo “expiar” vem do hebraico kāphar (כָּפַר), tradicionalmente associado à ideia de cobrir. Um exemplo está em Gênesis 6:14:

"Faça uma arca de madeira de cipreste. Divida-a em compartimentos e cubra-a com betume por dentro e por fora". 

Já a palavra "pecado" está relacionada ao termo hebraico ḥāṭā’ (חָטָא), cujo significado inclui pecar e errar. Um exemplo está em Juízes 20:16, que fala dos benjamitas que eram capazes de atirar pedras com a funda sem errar:

"Entre todo este povo havia setecentos homens escolhidos, canhotos, os quais todos atiravam com a funda uma pedra a um cabelo e não erravam." (Juízes 20:16, ARC)

Entretanto, a conotação do termo kāphar também está relacionada à ideia de reparar uma ofensa ou apaziguar uma situação de conflito com outra pessoa. Você pode conferir a amplitude de significados AQUI. Vejamos outros usos da palavra:

"Eu o aplacarei com o presente que vai adiante de mim, e depois verei a sua face; porventura me aceitará" (Gênesis 32:20)

"Que farei por vós? e com que farei reparação, para que abençoeis a herança do SENHOR?" (2 Samuel 21:3)

"A ira do rei é como mensageiro da morte, mas o homem sábio a apaziguará." (Provérbios 16:14)

Até aqui, alguém pode ligar os fatos e dizer: "Perfeito, Roneilson! Entendi. Kāphar vai além do serviço ritualístico: é um termo empregado também em contextos nos quais alguém está em falta com outra pessoa e tenta reparar o erro de alguma forma (Gênesis 32:20; 2 Samuel 21:3). No caso de Números 25:1-13, o povo estava em falta com Deus por tolerar o pecado, e Fineias reparou a situação ao intervir contra aquele que estava cometendo a transgressão. Curiosamente, a ira de Deus estava sobre o povo (Números 25:3, 4), assim como a ira do rei sobre a pessoa mencionada em Provérbios 16:14."

Agora, vamos trazer essa questão para a nossa realidade. Nós não estamos debaixo da ira de Deus, pois o sangue de Jesus nos purifica de todo pecado (1 João 1:7), e "nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus" (Romanos 8:1). Como se não bastasse, diferentemente do que ocorreu em Números 25:7-8, o diabo não faz parte do povo de Deus, não somos coniventes com seus erros e, evidentemente, não temos autorização nem capacidade de matá-lo como Fineias fez com os transgressores. Diante disso, onde, exatamente, o caso de Fineias se encaixa em nossa realidade?

Perceba, portanto, que o caso de Fineias, longe de resolver o problema, acaba reforçando a dificuldade teológica dessa interpretação. Se a analogia for válida, seria necessário admitir que o povo estivesse sob a ira de Deus por causa do pecado e que a morte de Satanás desempenhasse algum papel no apaziguamento dessa ira ou na reparação da ofensa, como ocorreu com a intervenção de Fineias em favor de Israel (Números 25:7-13). Mas isso não faria do diabo, na prática, um participante da solução do problema do pecado, ao lado de Cristo? Afinal, se a morte de Satanás fosse necessária para aplacar a ira divina ou compensar, de alguma maneira, os pecados dos salvos, sua punição deixaria de ser apenas uma consequência de suas próprias transgressões e passaria a exercer uma função no tratamento da culpa alheia. É justamente aí que a analogia se torna problemática: a Bíblia atribui a Cristo a obra de levar os nossos pecados e proporcionar a nossa reconciliação com Deus (Isaías 53:4-6; 1 Pedro 2:24), não a Satanás. Portanto, invocar Fineias não elimina a dificuldade; antes, torna ainda mais necessário explicar por que o diabo deveria desempenhar qualquer papel na expiação dos pecados daqueles que foram redimidos por Jesus.

Essa interpretação da Igreja Adventista do Sétimo Dia é tão problemática que, mesmo recorrendo a textos apócrifos (como bem lembrou o pastor no vídeo), a conta simplesmente não fecha. A começar pelo Livro de Enoque, onde Azazel já aparece acorrentado e preso nas trevas desde a época de Noé (1 Enoque 10:4-8), e não aguardando um evento no milênio futuro. Nem a tradição extrabíblica apoia a tese adventista.

Mas o toque mais irônico dessa história toda está na própria etimologia. Acadêmicos e uma parte da história parecem querer enterrar o Satanás corredentor. Segundo a análise linguística do hebraico (cf. Strong), a palavra Azazel provém da combinação de ez (עֵז - bode/cabra) e azal (אָזַל - ir embora / levar para fora), significando, literalmente, "o bode que vai embora". E qual é a cena que vemos no texto sagrado? Curiosamente... um bode sendo levado embora para o deserto (Levítico 16:21-22)! Esta é uma "coincidência" no mínimo incômoda para quem tenta a todo custo transformar a palavra no nome de um ser espiritual. Afinal, fica aquela pulga atrás da orelha: a etimologia da palavra significa exatamente 'bode enviado' e o contexto do texto mostra um... bode sendo enviado. A própria Septuaginta (LXX) traduziu o termo para o grego como apopompaios ("bode enviado para fora"), assim como a Vulgata Latina usou "caper emissarius" ("bode emissário"), porque perceberam essa obviedade. Ou seja, vamos torcer para que todas essas evidências estejam erradas para salvar uma crença surgida no século 19.

Mas e se for Azazel mesmo, né? Para completar, o texto diz que um bode era PARA o Senhor e o outro PARA Azazel (Levítico 16:8). Pense comigo: quando o texto diz "para o Senhor",  por acaso os judeus acreditavam que estavam sacrificando o próprio Deus no Yom Kippur? Obviamente não! O bode 'para o Senhor' era destinado ao Templo, que era a Casa do Senhor (Salmo 135:2). Da mesma forma, o bode não era Azazel, mas sim enviado para Azazel. Se apelarmos para as tradições extrabíblicas, o deserto era tido justamente como a prisão ou a morada desse anjo caído (1 Enoque 10:4). Ou seja: assim como um bode era destinado ao Templo (a Casa do Senhor), o outro era enviado ao deserto (a "casa" de Azazel). Dizer que o bode é Azazel/Satanás é desconhecer o próprio paralelismo do ritual e a linguagem do texto.

Para coroar o absurdo, alegam que o fato de a Terra ficar deserta e sem habitantes durante o milênio faria dela uma 'prisão' para Satanás. Onde a Bíblia diz isso? Na realidade, pode até ser o contrário. Parece até que esqueceram de ler o próprio livro de Apocalipse! Quando a grande Babilônia cai e se torna uma terra deserta e desolada, o texto diz expressamente que ela se torna "morada de demônios" (Apocalipse 18:2). Ou seja, na teologia bíblica, a ausência de seres humanos e o isolamento desértico não constituem uma prisão para o diabo, mas sim (pelo menos é o que parece!) o seu habitat natural. Portanto, dizer que a desolação aprisiona Satanás é uma ginástica exegética que atropela o texto do começo ao fim.

Gente, não existe um texto sequer na Bíblia (nenhumzimho mesmo!) que mostre o diabo levando sobre si o pecado do povo de Deus. E nem adianta tentar argumentar que o diabo estaria levando esses pecados "apenas de forma punitiva", porque a Bíblia é claríssima: quem foi punido e castigado pelos nossos erros foi Jesus! Como mostrado acima, o profeta Isaías, no capítulo 53, revela com todas as letras que o castigo que nos traz a paz esteve sobre Ele, e que pelas Suas pisaduras nós fomos sarados! A punição pelos nossos pecados foi paga em definitivo na cruz pelo Filho de Deus. O diabo não tem parte nenhuma, nem de forma redentora e nem de forma punitiva, no carregamento da culpa dos salvos!

Até aqui é importante pontuar: Embora o tom possa parecer ácido, convém ressaltar que este debate é sobre ideias, e não sobre pessoas. Do mesmo modo que os adventistas combatem ferrenhamente crenças nossas por acharem heresias horríveis, a exemplo do castigo eterno, não vejo o menor problema em fazer o mesmo com a doutrina do bode expiatório (Azazel). Aliás, viva a liberdade de expressão!

Em conclusão, Fineias não salvou a interpretação adventista de Levítico 16; pelo contrário, apenas reforçou a nossa acusação. Ao sustentar que a destruição de Satanás é necessária para expiar os nossos pecados e nos livrar da ira divina, a teologia desta denominação acaba por transformá-lo, inevitavelmente, em um corredentor. Deus me livre de tal pensamento! Quem defende que a morte do diabo traz expiação é quem realmente pode estar sob a ira de Deus, o que definitivamente não é o nosso caso. Fiquem com Deus!

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