Dez mandamentos?
A paz do Senhor a todos! Hoje trarei uma reflexão sobre o significado do termo "Dez Mandamentos", analisando-o à luz do texto sagrado e considerando também as diferentes tradições de interpretação, tanto judaicas quanto católicas e protestantes. Nosso objetivo será compreender o que a própria Escritura nos apresenta sobre essa expressão, sua origem, seu significado e a forma como esses mandamentos foram entendidos ao longo da história pelas diferentes tradições religiosas.
À primeira vista, percebo um problema bastante delicado nessa tradução, justamente porque ela pode levar muitos cristãos, especialmente os leigos, a interpretações, no mínimo, equivocadas. A primeira delas é a ideia de que existem apenas dez mandamentos em toda a Bíblia, que não é verdade.
Há inúmeros outros preceitos que são explicitamente apresentados como mandamentos de Deus. Por exemplo: "Não tentarás o Senhor, teu Deus" (Deuteronômio 6:16; Mateus 4:7); "Amarás, pois, o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma e de toda a tua força" (Deuteronômio 6:5); e "Amarás o teu próximo como a ti mesmo" (Levítico 19:18). Jesus, inclusive, identifica esses dois últimos como grandes mandamentos (Mateus 22:37-40). Além desses, temos toda uma série de mandamentos presentes na Lei de Moisés: leis relativas à sexualidade, como as prescrições de Levítico 18; as proibições e instruções acerca de práticas de consulta aos mortos, adivinhação e outras formas de ocultismo, em Deuteronômio 18:9-14; além de inúmeros outros preceitos distribuídos ao longo de Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio.
Essas interpretações muitas vezes causavam confusão quando eu ainda era novo convertido. Por exemplo, muitos me acusavam dizendo: "Olha, você só se preocupa em guardar apenas nove; deveria tentar guardar os dez". Entretanto, quando eu examinava a Bíblia, percebia que existiam muitos outros mandamentos, e não apenas nove ou dez. Vou ser sincero, se existisse apenas um, pra mim, ser humano falho e totalmente dependente da graça de Deus, seria completamente impossível seguir a lei à risca. Mas havia dezenas e, dependendo de como se contabiliza, até centenas de mandamentos e prescrições ao longo das Escrituras. Foi somente depois que parei para analisar com mais cuidado e compreender o significado etimológico da palavra que está por trás da tradução "mandamentos" que percebi que havia, na realidade, uma grande confusão teológica sendo propagada por muitos. A questão não era simplesmente contar quantos mandamentos existem na Bíblia, mas compreender o que o texto sagrado realmente quer dizer quando apresenta determinados preceitos como parte específica daquele conjunto conhecido como os Dez Mandamentos.
A primeira coisa que me chamou a atenção no princípio de meus estudos foi justamente a palavra que costuma ser traduzida como "mandamentos": דְּבָרִים (devarim), plural de דָּבָר (davar). O sentido básico de davar não é necessariamente "mandamento", mas "palavra", "fala", "declaração", "assunto", "coisa" ou "questão", dependendo do contexto. Curiosamente, a expressão עֲשֶׂרֶת הַדְּבָרִים (aseret hadevarim), literalmente "as dez palavras", aparece apenas três vezes no Antigo Testamento: Êxodo 34:28, Deuteronômio 4:13 e Deuteronômio 10:4.
E o grego dá uma grande força também na compreensão do assunto. A antiga tradução grega do Antigo Testamento, a Septuaginta (LXX), por exemplo, não traduziu essa expressão simplesmente como "dez mandamentos". Em Êxodo 34:28 e Deuteronômio 10:4, encontramos τοὺς δέκα λόγους (tous deka logous), isto é, "as dez palavras"; em Deuteronômio 4:13, aparece a expressão τὰ δέκα ῥήματα (ta deka rhemata), também com o sentido de "as dez palavras" ou "as dez declarações". Isso é particularmente interessante porque λόγος (logos) é exatamente a palavra utilizada em João 1:1: "No princípio era o Logos [Palavra]". Evidentemente, não estou dizendo que logos em Êxodo 34:28 tenha exatamente o mesmo sentido teológico que possui em João 1:1. O contexto é diferente. Mas como João 1:1 é famoso, todo mundo sabe que lá é traduzido por "Palavra". Ou seja, o ponto é simplesmente observar que, na própria Septuaginta, aquilo que tradicionalmente chamamos de "Dez Mandamentos" é apresentado como "dez palavras" (deka logoi).
Se você acha que acabou, está enganado. O próprio contexto de Êxodo 34:28 reforça que "Dez Palavras" é uma tradução mais fiel à expressão hebraica:
"E, ali, esteve com o Senhor quarenta dias e quarenta noites; não comeu pão, nem bebeu água; e escreveu nas tábuas as palavras (davar) da aliança, as dez palavras (devarim)." ( Êxodo 34:28)
Perceba o detalhe: "palavras" (davar) e "palavras" (devarim) pertencem à mesma raiz hebraica — דבר (d-b-r). O texto, portanto, apresenta uma clara relação entre as duas expressões: "as palavras da aliança" → "as dez palavras".
Isso não significa que essas palavras não contenham mandamentos. Elas contêm, sim, diversas ordens e proibições. O ponto é outro: a expressão original utilizada para designá-las é "Dez Palavras", e não "Dez Mandamentos". Essa distinção é importante porque evita que uma tradução posterior nos faça imaginar que a Bíblia está afirmando que existem apenas dez mandamentos em toda a Lei de Moisés.
Eu poderia parar por aqui, mas as evidências não acabam. A própria estrutura do Decálogo reforça essa ideia. Em Êxodo 20:1, o texto começa dizendo:
"Então, falou Deus todas estas palavras (devarim), dizendo..."
E, ao final da repetição do Decálogo, em Deuteronômio 5:22, Moisés declara:
"Estas palavras (devarim) falou o Senhor a toda a vossa congregação no monte..."
Perceba: tanto no início quanto no final, o próprio texto chama o conteúdo do Decálogo de “palavras” (devarim). E é justamente esse termo que encontramos em "as dez palavras" (aseret hadevarim). Portanto, "Dez Palavras" preserva de forma muito mais transparente a terminologia usada pelo próprio texto bíblico.
É verdade que mandamentos também podem ser chamados de devarim. O próprio Deuteronômio 6:6 diz: "Estas palavras que, hoje, te ordeno estarão no teu coração." Mas isso não significa que devarim seja sinônimo de mandamentos. Em Jeremias 36:2, Deus ordena: "Escreve nele todas as palavras que te falei contra Israel, contra Judá e contra todas as nações". Aqui, devarim se refere às palavras e mensagens proféticas de juízo, e não a mandamentos.
O termo hebraico não traz exatamente o conceito que temos hoje de "palavra", como um verbete ou um simples agrupamento de letras que formam um sentido. Davar possui um campo de significado mais amplo, podendo indicar palavra, fala, assunto, questão ou aquilo que foi dito. Um bom exemplo está em Êxodo 18:16: "Quando têm alguma questão, vêm a mim, para que eu julgue entre um e outro..." (Êx 18:16). Portanto, "palavra", nesse contexto, pode carregar a ideia de um assunto, uma questão, uma mensagem ou aquilo que foi DITO, e não necessariamente de um verbete isolado.
Agora, quando chegamos à divisão das Dez Palavras, encontramos um problema ainda mais interessante: as principais tradições religiosas não concordam sequer sobre quais enunciados devem ser considerados como cada uma das dez. Entre os protestantes, seguindo uma tradição de divisão encontrada em Fílon de Alexandria e Josefo, Êxodo 20:2-3 é geralmente entendido como a primeira Palavra: a declaração de Deus ("Eu sou o Senhor, teu Deus") seguida da proibição de ter outros deuses. A partir daí, os demais enunciados são distribuídos até chegar às dez. A tradição católica, por sua vez, segue essencialmente a divisão associada a Agostinho. Nela, a proibição de outros deuses é incorporada ao primeiro mandamento, enquanto a proibição da cobiça é dividida em dois: "não cobiçarás a casa do teu próximo" e 'não cobiçarás a mulher do teu próximo". Essa distinção também acompanha a diferença entre os termos hebraicos empregados no texto. Já a tradição judaica apresenta uma divisão ainda mais diferente. Ela considera Êxodo 20:2 ("Eu sou o Senhor, teu Deus, que te tirei da terra do Egito") como a primeira das Dez Palavras. O versículo seguinte, juntamente com a proibição da idolatria, inicia então a segunda.
Mas aqui surge um problema sério para a divisão católica. Costuma-se dizer que "não cobiçar a mulher" e "não cobiçar os bens" são dois mandamentos diferentes porque aparecem termos hebraicos distintos. Porém, o próprio texto bíblico enfraquece esse argumento. Em Êxodo 20:17, o mesmo verbo hebraico, חמד (ḥamad), é usado para os dois casos: "Não cobiçarás a casa do teu próximo; não cobiçarás a mulher do teu próximo". Portanto, no próprio Decálogo, a casa e a mulher estão submetidas ao mesmo verbo e à mesma proibição. E quando chegamos ao paralelo de Deuteronômio 5:21, encontramos uma inversão: para a mulher aparece ḥamad, enquanto para a casa aparece אוה (ʾawah), verbo que também significa desejar ou cobiçar. Isso é decisivo: se a diferença entre os verbos fosse suficiente para criar dois mandamentos, então Êxodo e Deuteronômio apresentariam divisões diferentes. Mas não é isso que o texto faz. A variação vocabular simplesmente mostra que os dois verbos pertencem ao mesmo campo de significado. Portanto, não há base lexical sólida para transformar a cobiça da mulher e a cobiça dos bens em dois mandamentos independentes. A divisão em dois parece depender muito mais de uma tradição posterior de numeração do que da estrutura do próprio texto hebraico.
Esta questão do hebraico pode ser comparada AQUI e AQUI.
É verdade que a tradição católica também apresenta uma divisão diferente dos mandamentos. Por exemplo, o primeiro mandamento é apresentado como "amar a Deus sobre todas as coisas". Essa é uma formulação que reúne ensinamentos do Novo Testamento e também elementos da própria tradição cristã. Mas não vou entrar nesses detalhes aqui. Quero me limitar ao que está escrito no próprio texto de Êxodo 20 e observar como os mandamentos aparecem ali, dentro do contexto da própria Escritura.
Descartando a divisão Católica, existem duas principais formas de dividir os Dez Mandamentos. A primeira é a judaica, e a segunda é a protestante. As duas interpretações são muito antigas e possuem uma longa tradição, isso é inegável. E os protestantes também não tiraram isso da cabeça, como podem pensar alguns. Como mencionado anteriormente, Filo e Josefo, que também eram judeus, faziam essa divisão. Mas, se levarmos em consideração o significado do termo hebraico davar, que pode significar "palavra", 'fala", mas também "assunto" ou "questão", particularmente considero a divisão judaica mais coerente.
Vamos ver os dois pensamentos e lógica por trás de cada um. Veja bem: os judeus entendem que "Eu sou o SENHOR, teu Deus, que te tirei da terra do Egito, da casa da servidão" é a primeira declaração, fala ou palavra. Já na divisão protestante, essa frase é geralmente considerada apenas uma introdução, e o primeiro mandamento começa com "Não terás outros deuses diante de mim".
Mas existe um detalhe importante. Quando entendemos davar como uma declaração ou assunto, não precisamos imaginar que cada frase encontrada no texto seja necessariamente um mandamento separado. Uma declaração pode apresentar um assunto e, depois, o próprio texto pode desenvolvê-lo. Um bom exemplo é o mandamento referente ao sábado. Deus diz: "Lembra-te do dia de sábado, para o santificar". Essa é a ideia principal. Depois, o texto continua explicando como esse sábado deveria ser observado: "seis dias trabalharás... mas o sétimo dia é o sábado do SENHOR, teu Deus; não farás nenhum trabalho...". Ou seja, temos uma declaração que apresenta o assunto e, em seguida, uma explicação que desenvolve aquele mesmo assunto.
O mesmo raciocínio também pode ser aplicado à idolatria. Primeiro aparece a declaração: "Não terás outros deuses diante de mim". Depois, o texto continua explicando esse assunto: "Não farás para ti imagem de escultura...". Não ter outros deuses e não fabricar imagens para adorá-las são proibições diferentes, mas estão claramente relacionadas ao mesmo grande tema: a idolatria. É justamente por isso que, particularmente, considero a divisão judaica mais coerente. Ela entende "Eu sou o SENHOR, teu Deus..." como a primeira declaração e mantém dentro do mesmo tema as duas proibições relacionadas à idolatria: não ter outros deuses e não fazer imagens para adorá-los.
Um texto que traz a mesma ideia é o seguinte, que trata a fabricação de imagens e deuses falsos como intercambiáveis:
"Mas os que confiam em imagens esculpidas e dizem às imagens de fundição: Vós sois nossos deuses, voltarão atrás, cobertos de vergonha." (Isaías 42:17 A21)
"Tais árvores servem ao homem para queimar; com parte de sua madeira se aquenta e coze o pão; e também faz um deus e se prostra diante dele, esculpe uma imagem e se ajoelha diante dela." (Isaías 44:15 ARA)
E por que não mencionarmos também o caso do bezerro de ouro, não é?
"Ele os recebeu de suas mãos e deu forma ao ouro com um cinzel, fazendo dele um bezerro de fundição. Então eles exclamaram: Ó Israel, aí está o teu deus, que te tirou da terra do Egito." (Êxodo 32:4 A21)
Outro detalhe muito interessante está lá no versículo 5, quando a Bíblia diz que não devemos nos curvar "a eles". Você pode ver uma lista de traduções deste versículo AQUI. No hebraico, esse "a eles" (lahem) está no masculino e no plural. Se a gente olhar a regra direta do texto, ele se conecta aos "outros deuses" do versículo 3, que é o único termo anterior que também está no masculino e no plural. Alguém poderia objetar e dizer: "Mas esse 'eles' não poderia estar se referindo ao conjunto do versículo 4, juntando 'imagem' e 'semelhança'?" Até poderia, pois no hebraico, assim como no português, quando juntamos uma palavra masculina e uma feminina, o pronome vai para o masculino plural. Porém, a própria Bíblia tira qualquer dúvida ao repetir essa exata estrutura mais à frente, em Êxodo 23:24:
"Não te curvarás aos seus deuses, nem os servirás, nem farás conforme as suas obras; antes, os derrubarás de todo e quebrarás de todo as suas colunas." (Êxodo 23:24)
"Não te curvarás a eles nem as servirás; porque eu, o Senhor, teu Deus, sou Deus zeloso, que meço a iniquidade dos pais nos filhos, até à terceira e quarta geração daqueles que me odeiam." (Êxodo 20:5, ARA)
Repare na estrutura: o texto usa exatamente os mesmos verbos de Êxodo 20 ("não te curvarás, nem os servirás"), deixando claro que o assunto central ali são os falsos deuses e o culto prestado a eles. Isso prova que, seja olhando pela gramática estrita do "a eles" ou pela comparação entre os textos, fazer imagens e adorar outros deuses fazem parte de um único e mesmo assunto (davar).
Na realidade, se formos falar de mandamento no sentido de "mitzvah" ("mitzvot", no plural), somente na questão das imagens já encontramos pelo menos três mandamentos diferentes: não fazer imagens para si, não se prostrar diante delas e não as servir (Êxodo 20:4–5; Deuteronômio 5:8–9). Eu posso fazer uma imagem de uma divindade para mim, colocando-a como protetora do meu lar, prática comum nos tempos antigos; posso me prostrar diante de uma imagem que nem sequer fui eu quem fez; e posso ainda servi-la, seguindo o culto daquele deus. São ações diferentes, embora estejam dentro do mesmo tema da idolatria. Isso mostra que não devemos confundir a quantidade de mandamentos específicos com as Dez Palavras, que podem reunir várias ordens relacionadas dentro de uma mesma declaração ou assunto.
Portanto, não estou dizendo simplesmente que os protestantes "contaram errado". As duas tradições organizam o mesmo texto de maneiras diferentes. Porém, considerando o significado de davar e observando como os próprios mandamentos funcionam (apresentando uma ideia e depois desenvolvendo-a), a divisão judaica me parece mais natural e coerente com o texto hebraico.
Independentemente de você concordar ou não com a forma como a tradição judaica organiza o texto, precisa admitir uma coisa: a visão deles pega muito bem a questão. Enquanto a maioria dos cristãos olha para essa passagem como se fosse só uma lista de dez regras isoladas, o judaísmo enxerga o que ela realmente é: "as palavras da ALIANÇA, que são dez palavras da aliança", como o próprio livro de Êxodo 34:28 faz questão de chamar. Não é um código penal somente; é um contrato entre Deus e o Seu povo.
O maior problema que vejo em muitas apresentações protestantes dos Dez Mandamentos é que, ao selecionar apenas algumas frases para formar uma lista de dez regras, acabam deixando de lado partes do texto que considero extremamente importantes. Por exemplo Êxodo 20:2 não é uma simples introdução sem importância. Nessa declaração, Deus apresenta quem Ele é ("SENHOR/tetragrama, teu DEUS"), revela Sua autoridade e lembra aquilo que já fez pelo Seu povo. Como a maioria dos protestantes não é judaica e, evidentemente, não foi tirada do Egito, muitas apresentações simplesmente começam no versículo 3, deixando essa declaração de lado. Quando olhamos para isso a partir da perspectiva judaica, porém, a questão ganha ainda mais sentido. Estamos diante da apresentação dos termos de uma aliança entre Deus e o Seu povo. Por isso, faz todo sentido que Deus comece dizendo quem Ele é, apresentando-Se como o Deus que tirou Israel do Egito e estabelecendo, assim, a base da relação entre Ele e o povo. Dentro desse contexto, essas palavras não são meros detalhes introdutórios: elas têm um forte valor teológico e fazem parte da própria mensagem da aliança.
Outro ponto interessante que acaba sendo excluído é justamente a parte que fala da misericórdia e da punição de Deus, mostrando que há consequências tanto para aqueles que O amam e guardam Seus mandamentos quanto para aqueles que O rejeitam (Êx 20:5-6). Isso também faz parte daquilo que o texto apresenta e não deveria ser ignorado quando se busca compreender sua estrutura.
Além disso, o mandamento "não tomarás o nome do Senhor, teu Deus, em vão" (Êx 20:7) muitas vezes é reduzido simplesmente à ideia de "não falar o nome de Deus em vão". Entretanto, o verbo hebraico utilizado, nasa’, possui a ideia de "carregar", “levar” ou "tomar". Portanto, o sentido pode ser compreendido de maneira mais ampla: não carregar o nome de Deus de maneira vã, falsa ou indevida. Ou seja, o problema não está apenas em pronunciar o nome de Deus de forma irreverente, mas também em levar sobre si o Seu nome sem corresponder àquilo que esse nome representa.
Assim, quando enxergamos o texto dentro da perspectiva de uma aliança entre Deus e Israel, essas partes que muitas vezes são deixadas de lado ganham muito mais importância. Desde Deus declarar quem Ele é e o que fez pelo Seu povo, passando pelas promessas de misericórdia e pelas advertências de punição, até a responsabilidade de carregar o Seu nome de maneira correta, tudo isso faz parte da mensagem do texto e não deveria ser simplesmente descartado para que se feche em uma lista de dez regras.
Em suma, independentemente de concordarmos com a tradição A, B ou C na forma de dividir e compreender as Dez Palavras ou, como é popularmente conhecido, Dez Mandamentos, o principal ponto que gostaria de destacar neste estudo é que não devemos nos limitar apenas à divisão tradicional dos mandamentos. É importante observar o significado mais amplo do termo hebraico "davar", bem como declarações e expressões que possuem grande importância no próprio texto, como a apresentação de Deus ao seu povo, o significado de carregar o seu nome, a sua misericórdia e também a sua justiça e punição para aqueles que desprezam os seus mandamentos. Muitas vezes, por seguirmos uma determinada tradição ou forma de interpretação, acabamos dando tanta atenção à divisão dos mandamentos que deixamos de perceber aspectos importantes que o próprio texto bíblico procura transmitir. E, talvez, seja justamente aí que esteja a maior riqueza desse estudo: não apenas saber como os mandamentos foram divididos, mas compreender o que Deus realmente estava comunicando ao seu povo por meio dessas palavras. Fiquem com Deus!
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