Roneilson Alves x Ezequiel Gomes

Que a paz do Senhor Jesus Cristo esteja com todos! 

Hoje farei uma análise de um debate travado entre mim e o apologista adventista Ezequiel Gomes no canal Resposta aos Ateus. Como o debate ocorreu em um formato de 4 ou  5 contra 1, ficou difícil desenvolver e concluir adequadamente uma linha de raciocínio dentro dos temas abordados, tanto da minha parte quanto da parte dele. Por isso, nesta publicação farei uma análise mais abrangente dos argumentos discutidos, buscando examinar com mais profundidade os pontos que foram levantados ao longo do debate.

Antes de entrar no assunto, gostaria de registrar que, da minha parte, achei Ezequiel uma pessoa sensacional. Diferentemente da imagem que muitos podem formar a partir dos vídeos que circulam na internet, ele se mostrou alguém muito educado e disposto a trocar ideias de forma amigável e respeitosa. E isso não apenas diante do público. Nas conversas privadas pelo WhatsApp, ele sempre manteve a mesma postura, sempre respondendo com atenção e até aceitando marcar debates e diálogos. Sinceramente, dificilmente alguns desses autoproclamados defensores da ortodoxia teriam a disposição de responder, no privado, uma pessoa completamente desconhecida. Nesse aspecto, parece que o "herege" acabou demonstrando mais humildade do que muitos que reivindicam para si o título de guardiões da verdade.

Para começar, apresentei a existência de dois lugares distintos como evidência da crença tradicional no tormento eterno. Enquanto os adventistas entendem que o sofrimento dos ímpios ocorrerá temporariamente nesta terra, antes da criação do novo céu e da nova terra, a posição tradicional sustenta que haverá uma separação definitiva entre o reino dos salvos e o lugar destinado aos ímpios.

Para fundamentar esse ponto, citei diversos textos em que os justos aparecem no reino, enquanto os ímpios permanecem do lado de fora, em condição de exclusão, "chorando e rangendo os dentes" (Mateus 8:11-12; 13:41-42; Lucas 13:28). Também destaquei que nas descrições escatológicas de Jesus, são os anjos que retiram os ímpios do meio dos justos e os lançam na fornalha de fogo (Mateus 13:49-50), e não o contrário. Isso sugere um movimento de separação em que os ímpios são conduzidos para um lugar distinto daquele onde os justos desfrutam do reino, o que se harmoniza mais naturalmente com a compreensão tradicional de uma punição eterna em um local separado da habitação dos redimidos.

Nesse momento, como resposta, Ezequiel apostou em uma jogada arriscada: tentou explicar toda essa linguagem de separação, exclusão e choro e ranger de dentes à luz de Apocalipse 20. Digo que foi uma aposta arriscada porque esse é justamente um dos textos que costumo usar para desafiar adventistas a apresentarem uma cronologia coerente sem incorrer em contradições ou erros exegéticos. Ele decidiu seguir por esse caminho, mas eu também tinha meus próprios problemas (e problemas sérios!). Além da limitação de tempo, havia a dificuldade de trabalhar com um grupo de colegas que não demonstrava muita disposição para construir uma linha argumentativa coordenada. Na prática, em vez de atuarmos como uma equipe, éramos quatro debatedores argumentando individualmente contra uma única pessoa. Coisa de louco (risos)!

Segundo Gomes, essa linguagem de separação, exclusão, choro e ranger de dentes realmente se cumpriria, mas não em um local distinto do reino dos salvos. Em sua interpretação, isso ocorreria no cenário descrito em Apocalipse 20:7-9, quando os ímpios ressuscitados cercarem a Cidade Santa após os mil anos. Nesse momento, os justos estariam dentro da cidade, desfrutando da segurança do reino de Deus, enquanto os ímpios permaneceriam do lado de fora. Dessa forma, a distinção entre os que estão no reino e os que estão excluídos dele seria preservada: os salvos dentro da Nova Jerusalém e os perdidos fora dela, cercando-a. À primeira vista, a explicação parece resolver o problema, pois mantém a separação encontrada em textos como Mateus 8:11-12, Mateus 13:41-42 e Lucas 13:28. Mas a questão é: será que ela realmente consegue harmonizar todos os detalhes desses textos com a cena de Apocalipse 20? Aqui está a diferença entre quem olha somente o discurso que, inclusive, foi coerente,  e quem analisa tudo milimetricamente. 

Pra começar, ele tinha um problema ainda maior: a cronologia. Ao escolher Apocalipse 20 como chave interpretativa para explicar o choro e ranger de dentes, precisava fazer todos os detalhes se encaixarem na ordem dos acontecimentos descrita no texto. A solução proposta foi a seguinte: Satanás seria solto após os mil anos e reuniria as nações para cercarem a Cidade Santa (Apocalipse 20:7-9). Deus, então, aproveitaria essa grande concentração de ímpios para realizar o juízo, de modo que, após a sentença, haveria o choro e ranger de dentes, seguido da destruição pelo fogo.

A proposta é interessante e, à primeira vista, parece resolver algumas dificuldades. O problema é que ela começa a pedir uma certa dose de boa vontade do leitor quando confrontada com os detalhes. Afinal, em Apocalipse 20, quem reúne os ímpios é Satanás, não os anjos; quem os leva até a Cidade Santa é Satanás, não os anjos; e, quando o fogo aparece, ele desce do céu sobre eles (Apocalipse 20:9). Enquanto isso, nas palavras de Jesus, os anjos entram em cena, separam os ímpios dos justos e os lançam na fornalha de fogo, sendo nesse contexto que ocorre o choro e ranger de dentes (Mateus 13:41-42, 49-50).

Até aqui, portanto, os anjos parecem ter tirado umas férias estratégicas justamente no texto que deveria explicar sua atuação. Talvez apareçam mais adiante. Mas, por enquanto, continuam desaparecidos da narrativa, enquanto Satanás acaba desempenhando boa parte da função que Jesus atribui aos seres celestiais.

O grande problema da interpretação de Ezequiel (e de muitos aniquilacionistas) aparece quando pegamos todas as passagens relevantes e tentamos harmonizá-las em um único quadro. Aí o negócio complica. Reconheço que Ezequiel tem uma capacidade de se expressar muito superior à minha, e isso o ajuda bastante na hora de construir e apresentar seus argumentos. Mas, no fim das contas, a questão não é quem fala melhor, e sim qual interpretação consegue acomodar todos os dados bíblicos.

Por exemplo, a sequência "lançar + "de fogo" aparece de forma consistente em diferentes textos escatológicos. Em Mateus 13:41-42, os anjos lançam os ímpios na fornalha de fogo. Em Mateus 18:8-9, Jesus fala de ser lançado no fogo eterno ou geena de fogo. Em Apocalipse 20:15, os perdidos são lançados no lago de fogo. Quando colocamos essas passagens lado a lado, a conclusão mais natural é que fornalha de fogo, Geena e lago de fogo são diferentes descrições da mesma realidade escatológica.

Mas e o fogo que desce do céu e consome os rebeldes? Aqui entra um ponto frequentemente ignorado. Na perspectiva pré-milenista, Apocalipse 20 não descreve imediatamente o julgamento final no lago de fogo. Primeiro, após os mil anos, Satanás é solto e engana as nações, que marcham contra Jerusalém, entendida por muitos pré-milenistas como a Jerusalém terrena, e não a celestial. Nesse momento, Deus responde com fogo descendo do céu sobre os invasores (Apocalipse 20:9). Somente depois disso é que ocorre a cena do grande trono branco, com a ressurreição dos mortos para julgamento (Apocalipse 20:11-13). Após a sentença, os ímpios são lançados no lago de fogo (Apocalipse 20:14-15).

Essa sequência resolve uma dificuldade importante. O fogo que desce do céu em Apocalipse 20:9 não precisa ser identificado com a fornalha de fogo, a Geena ou o lago de fogo. Trata-se de um ato de juízo divino sobre as nações rebeladas. Já o lago de fogo aparece posteriormente, após o julgamento. Assim, a linguagem de os ímpios serem lançados no fogo permanece preservada e continua em harmonia com os textos de Jesus, nos quais os anjos executam a separação dos justos e dos ímpios e lançam estes últimos no lugar de punição (Mateus 13:41-42, 49-50).

Agora tente explicar tudo isso para acomodar o nosso querido e estimado aniquilacionismo. A partir daqui, as coisas começam a exigir uma criatividade exegética que eu, humildemente, não consigo acompanhar.

Na leitura aniquilacionista, o fogo desce do céu e destrói os ímpios, além de consumir a criação. O problema é que Apocalipse 20:11 informa que o céu e a terra já haviam fugido da presença daquele que estava assentado no trono, sem que se encontrasse lugar para eles. Então ficamos com uma dúvida sincera: estamos falando de uma destruição cósmica ou de duas? Será que existem dois céus e duas terras entrando e saindo de cena ao longo do capítulo?

E a cronologia fica ainda mais interessante quando tentamos encaixar todos os elementos. Deus destruiria o mundo, depois o mundo precisaria estar disponível novamente para o julgamento, depois os ímpios voltariam aos quatro cantos da terra para cumprir a profecia, depois Satanás os reuniria para cercar a Cidade Santa e, finalmente, Deus destruiria tudo outra vez. Confesso que, nesse ponto, começo a sentir certa saudade da interpretação tradicional, que pode ter seus desafios, mas ao menos não exige que o universo participe de um processo de demolição e reconstrução em tempo recorde.

Brincadeiras à parte, o ponto é simples: quando uma interpretação precisa multiplicar hipóteses para manter sua coerência, talvez o problema não esteja nos textos, mas no sistema que está sendo imposto a eles. E quanto mais tentamos encaixar toda a escatologia bíblica dentro do molde aniquilacionista, mais remendos parecem ser necessários para manter a estrutura de pé.

Mas alguém poderia questionar: "Apocalipse diz que o céu e a terra fogem diante da presença de Deus, enquanto Pedro diz que eles serão destruídos pelo fogo". Porém esse é mais um daqueles problemas que surgem quando se lê um texto sem considerar os demais. Nos próprios textos bíblicos, a presença de Deus está frequentemente associada ao fogo. Em muitas passagens, como Êxodo 19, Deus se manifesta claramente em fogo. Sua glória se manifesta em fogo (Êxodo 24:17). O salmista declara que, diante da sua presença, os montes se derretem como cera (Salmo 97:3-5). Portanto, criar uma oposição entre a presença de Deus em Apocalipse 20:11 e o fogo de 2 Pedro 3 não parece ser a melhor leitura. Na verdade, as duas imagens se complementam perfeitamente.

Como se isso não bastasse, o próprio Pedro afirma que os céus e a terra atuais estão reservados para o fogo "até o dia do juízo" (2 Pedro 3:7). Observe: até o dia do juízo, não antes dele. E em Apocalipse 20 é justamente no contexto do juízo final, diante do grande trono branco, que o céu e a terra desaparecem da presença de Deus (Apocalipse 20:11-15). Às vezes a solução não exige teorias complexas nem cronologias mirabolantes. Exige apenas ler um texto à luz do outro. É só ler mais, gente!

A ideia de que o choro e ranger de dentes acontece na terra para evitar a existência de dois lugares distintos também é facilmente consumida quando colocamos esse argumento diante do restante das Escrituras. O próprio Apocalipse já cria uma dificuldade para essa leitura. Em Apocalipse 20:10, antes mesmo da cena do juízo final ser concluída, a besta e o falso profeta já se encontram no lago de fogo, sendo atormentados dia e noite. Ou seja, o texto já apresenta uma realidade de punição distinta do reino dos salvos antes mesmo de chegarmos aos versículos finais do capítulo.

Mas a coisa fica ainda mais interessante quando ligamos Paulo a João. Paulo afirma repetidamente que os idólatras não herdarão o Reino de Deus (1 Coríntios 6:9-10; Gálatas 5:19-21). Já João declara que os vencedores "herdarão" todas as coisas (Apocalipse 21:7), utilizando o mesmo conceito de herança encontrado em Paulo. E o que exatamente eles herdam? Não apenas uma cidade, mas toda a nova criação descrita em Apocalipse 21 e 22. Em contraste, João diz que os idólatras terão sua parte no lago de fogo (Apocalipse 21:8). Perceba a força dessa conexão. Paulo diz que os idólatras não herdarão o Reino. João diz que os vencedores herdarão a nova criação, enquanto os idólatras serão lançados no lago de fogo. A conclusão parece bastante natural: o Reino não pode ser reduzido apenas à Nova Jerusalém, como às vezes alegam nossos amigos aniquilacionistas. O Reino corresponde à totalidade da nova criação herdada pelos santos, enquanto os ímpios permanecem excluídos dessa herança e destinados ao lago de fogo. Mais uma vez, quando juntamos os textos em vez de analisá-los isoladamente, a distinção entre a herança dos salvos e o destino dos ímpios aparece de forma bastante clara.

Bem, acredito que não preciso me alongar mais. Foi uma ótima conversa do ponto de vista pessoal. Não houve discussões acaloradas, ataques pessoais ou palavras de baixo nível, algo cada vez mais raro em debates teológicos. Apesar das divergências, o diálogo foi respeitoso e proveitoso. Também deixo claro que não publico estas observações com a intenção de prejudicar ninguém, mas apenas de analisar os argumentos apresentados e explicar por que continuo convencido da posição que defendo. Que Deus abençoe a vida do Ezequiel e continue guiando seus caminhos. E, para encerrar com uma brincadeira que alguns entenderão: espero que ele nunca precise fazer um canal de dente sem anestesia,  experiência que, segundo a história que ele mesmo costuma contar, talvez ajude a explicar sua resistência tão firme à ideia de tormento eterno (risos!). Fiquem com Deus!

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