A grande aposta em Lucas 23:43


 Que a paz do Senhor esteja com todos os meus amados irmãos! Hoje trarei um assunto bem curioso, que é a colocação da vírgula ou dos dois pontos em Lucas 23:43. Para a maioria das traduções, o ponto deve estar antes de "hoje", ou seja, o ladrão estaria no paraíso naquele mesmo dia. Para uma minoria inconformada, a vírgula deve estar após "hoje", ou seja, Jesus apenas estaria prometendo naquele dia que o ladrão estaria no paraíso em algum momento futuro.

Pra começar, o argumento a favor da tradução majoritária parece uma tsunami. Jesus diz "em verdade te/vos digo" dezenas de vezes nos Evangelhos (cf. Mateus 5:18; Mateus 6:2; Mateus 8:10; Mateus 10:15; Marcos 3:28; Lucas 4:24; João 1:51). E em todos os casos (que chegam quase a uma centena), a vírgula ou dois pontos são sempre colocados após o "digo". Apostar que Lucas 23:43 seria uma exceção já soa como uma malandragem teológica. Sejamos sinceros: só lá? Isso parece ter sabor de distorção para defender heresias.

Para tentar contrabalançar o peso de quase 100 evidências contrárias à sua posição, os mortalistas costumam alegar que Lucas 23:43 seria uma exceção. Segundo eles, quando o advérbio grego σήμερον ("hoje") aparece entre dois verbos, é comum que ele se relacione com o verbo anterior. Assim, defendem que, nesse caso, o "hoje" não qualificaria "estarás", mas sim "digo". Chegam até a argumentar que, em Lucas 23:43, no lugar de estar λέγω σοι σήμερον ("digo a ti hoje"), estaria σοὶ λέγω σήμερον ("a ti digo hoje"), diferente de todas as ocorrências nos Evangelhos. Tudo isso para provar que Lucas estaria criando uma exceção, colocando o verbo junto do advérbio, rompendo com padrão em todas as partes dos evangelhos.

E é exatamente aqui que a aposta mortalista se intensifica cada vez mais. Isso porque, quando entramos no campo da crítica textual (especialmente nesses detalhes secundários), torna-se praticamente impossível bater o martelo quanto à ordem exata em que Lucas escreveu. Primeiramente, é importante destacar que há, neste imenso oceano de cópias antigas, manuscritos que chegam a inserir o ὅτι ("que") entre λέγω e σήμερον. Isso, por si só, já representa um verdadeiro problema para nossos amigos.

Além da existência de manuscritos que trazem oti, a tentativa de sustentar que Lucas teria invertido a ordem para soi lego em Lucas 23:43  (criando assim uma exceção) também apresenta fragilidades. Isso porque não há unanimidade entre os manuscritos nesse ponto. De fato, testemunhos importantes como o antiquísso Papiro 75 (c. 175–225 d.C.), o Codex Vaticanus (c. 300–325 d.C.) e o Codex Ephraemi Rescriptus (c. 450 d.C.) são frequentemente citados como apoio a essa leitura.

Entretanto, outros manuscritos igualmente relevantes, como o Codex Sinaiticus (c. 330–360 d.C.) e o Codex Alexandrinus (c. 400–440 d.C.) seguem o padrão mais comum em Lucas, apresentando lego soi, isto é, concordando com as outras dezenas de usos no Novo Testamento. Dessa forma, a alegada inversão não se sustenta como argumento decisivo, mas revela um cenário textual dividido, no qual não é possível afirmar com segurança que Lucas tenha rompido seu padrão habitual nesse versículo.

As informações sobre os dois últimos parágrafos foram tiradas DAQUI, um vídeo do professor de grego Euler Lopes. 

É bem possível que alguém, ao analisar o Papiro 75, argumente que, por ser mais antigo que outros excelentes manuscritos, ele constitua uma prova decisiva em favor da leitura que sustenta o mortalismo. No entanto, essa conclusão é precipitada. Mesmo que se admita, por hipótese, que o verbo esteja diretamente junto de σήμερον (hoje), que aparece posteriormente na frase, ainda assim surgem dificuldades significativas, como demonstrarei a seguir.

Aliás, como se não bastasse a discussão sobre a ordem das palavras (se vem primeiro λέγω ou σοι), é importante observar que o advérbio σήμερον (hoje) pode aparecer junto de um verbo anterior, mas ligado a outro bem distante e posterior, como vemos em Evangelho de Lucas 19:5:

"καὶ ὡς ἦλθεν ἐπὶ τὸν τόπον, ἀναβλέψας ὁ Ἰησοῦς εἶπεν πρὸς αὐτόν· Ζακχαῖε, σπεύσας κατάβηθι· σήμερον γὰρ ἐν τῷ οἴκῳ σου δεῖ με μεῖναι."

A tradução adequada é:

"E, quando chegou àquele lugar, olhando para cima, Jesus lhe disse: Zaqueu, desce,l; hoje, pois, é necessário a mim ficar em tua casa."

Esse exemplo demonstra que o σήμερον pode estar entre dois verbos, iniciar uma oração e estar ligado ao posterior, tendo como base o contexto. 

Mas alguém poderia questionar que, em Lucas 19:5, "desce" e "é necessário" não estão colados a σήμερον, e concluir que a comparação não procede. Porém, isso não se sustenta, porque o ponto não é a proximidade das palavras, e sim a relação sintática: em Evangelho de Lucas 19:5, mesmo com termos no meio, σήμερον se liga claramente a δεῖ (é necessário), e não ao verbo anterior ("desce"). Para a tristeza de alguns, em Lucas 23:43, além da discussão sobre a ordem dos termos, também não há "colagem", pois entre σήμερον (hoje) e ἔσῃ (estarás) aparece a expressão μετ’ ἐμοῦ (comigo). Ou seja, nem ali os termos estão "grudados", o que reforça que não é a posição imediata que define a ligação, mas a estrutura da frase.

"καὶ εἶπεν αὐτῷ Ἀμήν σοι λέγω, σήμερον μετ' ἐμοῦ ἔσῃ ἐν τῷ παραδείσῳ"

A comparação entre os dois textos no grego pode ser vista AQUI.

Alguns tentam descartar dizendo que, diferentemente de Lucas 23:43, em Lucas 19:5 há uma preposição no meio e, por isso, o σήμερον (hoje) só poderia se ligar ao verbo posterior. Mas isso não se sustenta, e o próprio texto grego mostra isso.

Veja :

ἀναγγέλλω σοι σήμερον ὅτι ἀπωλείᾳ ἀπολεῖσθε καὶ οὐ μὴ πολυήμεροι γένησθε ἐπὶ τῆς γῆς...

Tradução direta:
"Declaro a ti hoje que certamente perecereis..." (LXX)

Perceba: σήμερον (hoje) aparece no meio de dois verbos; há uma preposição (ὅτι) entre ele o segundo verbo (ἀπολεῖσθε); e mesmo assim o advérbio se liga ao verbo anterior (ἀναγγέλλω, "declaro").  Ou seja, o que deve ter peso é o padrão nas falas do autor, não uma regra gramatical inexistente. Isso vemos no fato de Lucas 19:5 e Deuteronômio 30:18 terem estrutura idêntica, mas a palavra estudada se conectar a verbos de ordens distintas. E se sendo de forma bem direta: não é regra; é adaptação forçada. Quando o texto não ajuda a tese, tentam dobrar a gramática.

Aqui vale destacar algo que muitos estudiosos ignoram, sejam mortalistas ou imortalistas. Existe, sim, um padrão nas Escrituras. No Antigo Testamento, Deus frequentemente estrutura suas declarações de modo que o "hoje" apareça concluindo a ideia, como vemos em Deuteronômio 30:18. Ou seja, o "hoje" não inicia a sentença, mas fecha aquilo que foi dito. Por outro lado, Jesus também possui um padrão bem definido de fala. Ele costuma iniciar declarações com a expressão "em verdade te digo". 

Diante disso, surge a pergunta: por que em Deuteronômio o "hoje" não começa a sentença, mesmo sendo sintaticamente possível,  algo semelhante ao que vemos em Lucas 19:5? A resposta é simples: porque o texto segue o padrão da fala divina,  o "hoje" encerra a declaração:

"...ponho hoje" (Dt 4:8, 11:26)

"...tomo por testemunhas hoje" (Dt 4:26)

"...testifico hoje" (Dt 8:19)

"...mando hoje" (Dt 7:11, 11:27)

"...proponho hoje" (Dt 11:32, 30:15)

"...declaro hoje" (Dt 26:17, 26:18, 30:18)

"...testifico hoje' (Dt 32:46)

E por que, em Lucas 23:43, a entonação naturalmente se encerra após "te digo"? Pela mesma razão: o texto segue o padrão de Jesus. A expressão "em verdade te digo" funciona como introdução completa, abrindo caminho para a afirmação seguinte. Portanto, tentar deslocar o "hoje" para modificar o sentido da frase não respeita esses padrões. 

É claro que muitos de nossos amigos estariam dispostos a apostar até o último centavo neste argumento. Para isso, alegam que, na mente dos autores bíblicos, quando se fala em "paraíso", tinha-se em vista exclusivamente o reino futuro. Logicamente, à primeira vista, parece até uma boa jogada. Afinal, o ladrão, no versículo anterior, fala explicitamente do reino (cf. Lucas 23:42), e, em Apocalipse, dentro desse contexto escatológico, aparece a mesma palavra associada ao destino final dos justos (Ap 2:7).

Mas há uma questão simples que resolve tudo: no reino, só estaremos com Jesus quando Ele vier (cf. I Ts 4:16–17). Mas a promessa ao ladrão foi para aquele dia. E em 16:22, ao morrer, Lázaro é imediatamente levado pelos anjos a um lugar de descanso. Conclusão: o padrão é claro. Logo, "hoje estarás comigo no paraíso" ( 23:43) significa exatamente isso. Negar é forçar o texto.

Sobre o paraíso como realidade ligada ao pós-morte, esse conceito já era amplamente conhecido no meio judaico do tempo de Jesus. Um exemplo disso aparece na obra pseudepígrafa Apocalipse de Moisés, geralmente datada entre o final do século I d.C. e o século II d.C., onde essa ideia é claramente atestada. Vejamos:

"Quando os anjos proclamaram isto, veio um dos serafins de seis asas, levou Adão rapidamente ao lago Acherusiano e o lavou na presença de Deus. E ele passou três horas jazendo, e então o Senhor do universo, sentado em Seu santo trono, estendeu Suas mãos, levantou Adão e o entregou ao arcanjo Miguel, dizendo-lhe: 'Eleva-o até ao paraíso, sim, até ao terceiro céu, e que ali permaneça até aquele grande e terrível dia que Eu hei de trazer sobre o mundo.' E o arcanjo Miguel, tendo recebido Adão, levou-o consigo e o ungiu, conforme Deus lhe dissera por ocasião do perdão de Adão." (Apocalipse de Moisés)

É importante esclarecer que não estou atribuindo inspiração ao Apocalipse de Moisés. O ponto é outro: a concepção de anjos conduzindo os justos a um lugar de consolo ou ao paraíso (como aparece em Lucas 16 e 23) já estava presente no imaginário e na tradição judaica do período.

A associação entre o paraíso e o destino dos justos após a morte também é encontrada no Talmud, refletindo uma concepção já presente no judaísmo do período. Isso indica que essa ideia não surge no cristianismo, mas pertence ao próprio ambiente judaico em que ele se desenvolveu. Observemos:

"Rav Yehuda diz que Rav disse: Pouco antes de Moisés , nosso mestre, deixar este mundo e ir para o Jardim/Paraíso do Éden, ele disse a Josué: 'Pergunte-me sobre todos os casos de incerteza em matéria de halachá que você tiver, para que eu possa esclarecê-los para você'." (Tamurah 16a, Talmud Babilônico)

No fim das contas, a tentativa de mudar o lugar da vírgula parece mais um esforço para fazer o texto dizer o que a gente quer do que aceitar o que ele realmente diz. Jesus não estava apenas "batendo o martelo" em uma promessa para o futuro; Ele estava respondendo ao pedido desesperado de um homem que queria ser lembrado lá na frente com um presente imediato. Se o padrão de Jesus em todos os Evangelhos é usar "em verdade te digo" para abrir uma declaração importante, não faz sentido inventar uma regra nova só para esse versículo. O "hoje" não é uma etiqueta de data para o dia em que Jesus falou, mas sim a garantia de que, no momento em que os olhos daquele homem se fechassem para o sofrimento da cruz, eles se abririam para a paz do Paraíso. Forçar a gramática para adiar essa promessa é tirar o brilho da urgência da graça, que não espera o tempo passar para acolher quem se arrepende.



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