Refletindo sobre Deus e o mal neste mundo

A paz do Senhor! Hoje trago uma reflexão mais filosófica do que propriamente bíblica acerca de diversos temas ligados à presença do mal no mundo. O foco será compreender por que tantas coisas ruins acontecem e por que, diante disso, surge a impressão de que Deus ou é indiferente à realidade humana, ou, como defendem os ateus, simplesmente não existe.

A primeira pergunta que se impõe é: se Deus criou todas as coisas, teria Ele também criado o mal? Prefiro afirmar que o mal não é uma criação direta, mas uma consequência. Mas consequência de quê? Da liberdade (cf. Gênesis 1:31).

Ao criar o homem, Deus lhe concedeu o livre-arbítrio e colocou diante dele a árvore do conhecimento do bem e do mal (cf. Gênesis 2:16–17). Ao oferecer a possibilidade de escolha (comer ou não), abriu-se, por consequência, a possibilidade da existência do mal. A queda, portanto, não decorre da criação divina em si, mas do uso indevido da liberdade (cf. Gênesis 3:6).

Ou seja, para que não houvesse mal, seria necessário que não houvesse liberdade. E, sem liberdade, não seríamos seres morais, mas apenas marionetes, incapazes de amar, escolher ou nos relacionar de forma genuína com o próprio Deus. Afinal, a própria Escritura apresenta a vida como fruto de uma escolha consciente (cf. Deuteronômio 30:19).

Mas alguém poderia ainda empurrar mais um questionamento: se Deus pode tudo, e o mal é consequência da liberdade, por que Ele não criou um mundo em que todos são livres e, ainda assim, ninguém tem sequer a inclinação de optar pelo mal?

Respondemos: Ele criará. É exatamente isso que confessamos como cristãos. A história não termina na queda, mas na redenção. A promessa bíblica aponta para um estado futuro em que a liberdade não será abolida, mas plenamente restaurada — livre, inclusive, da inclinação ao mal. Como está escrito: "Eis que faço novas todas as coisas" (Apocalipse 21:5). Ou seja, Deus não falhou em seu propósito; Ele está conduzindo a história a um fim em que a liberdade e a santidade coexistirão perfeitamente.

Todavia, é claro que a discussão não para: alguém ainda poderia perguntar: mas por que Ele não fez isso desde o princípio? E é aqui que inevitavelmente tocamos no campo da subjetividade. Pois, se já vivêssemos nesse mundo perfeito, sem qualquer experiência com o mal, talvez a pergunta fosse justamente o oposto: por que Deus não criou um mundo onde houvesse a possibilidade de pecar, para que conhecêssemos, de fato, as consequências do pecado?

Nesse sentido, a própria origem do pecado assume um papel pedagógico na história. Ela nos revela não apenas a gravidade da desobediência, mas, sobretudo, a profundidade da misericórdia divina. O mundo que conheceu a queda se torna, então, o palco onde se manifesta tanto a justiça quanto a graça. Como está escrito: "onde abundou o pecado, superabundou a graça" (Romanos 5:20).

Ou seja, a queda não existe sem propósito. Ela faz com que a eternidade não seja apenas um estado de inocência "automática", mas uma vitória consciente. No novo céu e na nova terra, a liberdade será verdadeira, porque o ser humano, depois de conhecer o que o pecado causa e também a grandeza da redenção, escolherá o bem por amor, e não apenas porque foi assim determinado.

Em outras palavras, cremos em um mundo onde santidade e liberdade caminham juntas, baseadas na experiência real do que é o mal e das suas consequências. Textos como Isaías 66:24 e os relatos de cidades destruídas mostram exatamente isso: servem como um alerta sobre o preço da desobediência. Assim, o mal deixa de ser apenas uma ideia distante e passa a ser algo concreto, que foi vivido, compreendido e, no fim, rejeitado para sempre.

​Poderia se questionar: "Não seria injusto que, para a existência desse mundo ideal e redimido, multidões tivessem que sofrer a condenação eterna?". À primeira vista, parece um preço alto, mas a questão se resolve na natureza da própria justiça e liberdade.

​A condenação eterna não é um castigo imposto a inocentes para que outros sejam salvos; é, antes de tudo, o reconhecimento divino da escolha humana. Deus não "manda" pessoas para o inferno contra a vontade delas; Ele simplesmente ratifica a decisão de quem escolheu, durante toda a vida, existir à parte d'Ele.

​Portanto, o mal e a sua consequência final (a separação de Deus) são o testemunho de que a liberdade humana é real. Se Deus forçasse todos a entrar no "mundo ideal", Ele estaria cometendo uma violência contra a vontade daqueles que O rejeitaram. A existência do juízo garante que nossas escolhas têm peso eterno (sem ele, a liberdade seria uma ilusão e a moralidade, um teatro).

Mas alguém poderia sugerir: beleza, o mal moral está explicado. Pelo fato de o homem ter liberdade, e não ser apenas um robô programado, é suportável imaginar que, mesmo existindo um Deus onipotente, é compreensível que um justo seja morto, como Nabote por Acabe (cf. 1 Reis 21), ou, nos dias atuais, uma jovem sendo estuprada. Mas e o mal natural? Por que um Deus bom permite mortes por vulcões, terremotos, tufões e tsunamis? 

Para isso, é necessário olharmos para as primeiras palavras dirigidas ao homem após a queda: 

"Maldita é a terra por tua causa; em fadigas comerás dela todos os dias da tua vida" (cf. Gênesis 3:17).

Ou seja, o próprio texto bíblico estabelece uma conexão direta entre o pecado humano e a desordem da criação. A terra (que antes era plenamente harmoniosa) passa a ser afetada por causa do homem.

Assim, se o mal moral é consequência da liberdade humana, o mal natural surge como desdobramento desse mal moral. Não se trata de duas realidades isoladas, mas de uma relação de causa e efeito: o pecado rompeu não apenas a comunhão com Deus, mas também a ordem da própria criação, sujeitando-a à corrupção, ao sofrimento e, consequentemente, a fenômenos que hoje chamamos de "tragédias naturais".

Além disso, terremotos, pragas e outros desastres naturais não são apenas consequências de um mundo caído, mas também sinais que apontam para a redenção futura. O próprio Cristo os chamou de "princípio das dores" (cf. Mt  24:7-8), usando a metáfora do parto: antes da nova realidade, há sofrimento.

Essa ideia é reforçada por , ao afirmar que toda a criação "geme como em dores de parto" (cf. Rm  8:22). Ou seja, não é um sofrimento sem sentido, mas um processo que antecede a restauração. Assim, esses fenômenos funcionam como alertas: indicam que o mundo atual é transitório e que caminha para o dia em que tudo será restaurado (cf. Rm 8:18-21).

Aqui surge uma diferença essencial entre nós e os que não creem. Diante desses eventos, nos aproximamos de Deus, pois entendemos que são o princípio das dores e apontam para a vinda de Cristo (cf. Mateus 24:8). É verdade que muitos irmãos partiram, como na COVID-19, mas permanecemos firmes na esperança de que estaremos juntos no Reino. Já o incrédulo vê tudo com ceticismo, como mero acaso, sem perceber o chamado de Deus.

Concluindo, é evidente que toda resposta sobre Deus e o mal abre espaço para muitos outros questionamentos, o que é compreensível. Ainda assim, este breve texto busca oferecer uma explicação básica de como conciliar um Deus amoroso e todo-poderoso com a existência do mal. Em síntese, o mal moral não é uma criação, mas consequência da liberdade humana; e o mal natural, um desdobramento disso que, no fim, também aponta para uma mensagem de esperança.


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