Cristãos canibais?
Que a paz do Senhor esteja com todos!
Hoje trarei um assunto que muitos consideram delicado, mas que precisa ser analisado com seriedade bíblica. Trata-se do fato de que muitos cristãos (como católicos, ortodoxos e até alguns luteranos) acreditam que, no ato da ceia ou da eucaristia, o fiel estaria literalmente comendo a carne e bebendo o sangue de Jesus. Ao longo deste texto, farei uma análise detalhada dessa concepção e demonstrarei por que ela não apenas carece de base bíblica, mas também conduz a implicações extremamente problemáticas. Afinal, levada ao pé da letra, essa ideia resulta em algo próximo ao canibalismo e configura, do ponto de vista bíblico, uma grave distorção doutrinária, beirando a heresia.
Para quem adota essa visão, a interpretação literal das passagens bíblicas costuma ser a primeira opção. Assim, quando Jesus declara que quem não comer da sua carne e não beber do seu sangue não tem a vida eterna (João 6:53–54), concluem que ele estaria se referindo ao ato físico de comer e beber na Santa Ceia (Mateus 26:26–28; Marcos 14:22–24; Lucas 22:19–20). A partir disso, afirmam que aqueles que entendem essas palavras de forma simbólica estariam perdidos, já que, segundo essa leitura, não estariam de fato comendo a carne nem bebendo o sangue de Jesus.
O grande problema surge quando lemos o evangelho como um todo. Jesus também é descrito como a porta, pela qual todos devem passar (João 10:7,9); como a videira (João 15:1,5); como a luz (João 8:12); como o pão (João 6:35); e como o caminho (João 14:6). No entanto, ninguém sustenta que Jesus seja literalmente uma porta de madeira, uma planta ou um elemento físico de iluminação. Essas expressões são claramente linguagem figurada, usadas para comunicar verdades espirituais profundas. Aplicar o literalismo apenas às passagens sobre comer a carne e beber o sangue, ignorando esse padrão constante de metáforas no próprio discurso de Jesus, revela uma leitura infeliz e inconsistente do texto bíblico.
Em João 6, quando Jesus fala em comer a sua carne e beber o seu sangue, Ele está usando uma linguagem simbólica e fácil de entender dentro do próprio texto. O significado é explicado pelo próprio Cristo quando diz:
"Eu sou o pão da vida; aquele que vem a mim não terá fome; e quem crê em mim nunca terá sede" (João 6:35)
Ou seja, comer corresponde a vir a Jesus, e beber corresponde a crer Nele. Assim como o pão e a água sustentam a vida física, Jesus é quem sustenta a vida espiritual e concede a vida eterna (Jo 6:35, 40). O contexto é o maná do deserto, que alimentava apenas temporariamente (Jo 6:31, 49), enquanto Cristo se apresenta como o verdadeiro pão do céu, capaz de dar vida para sempre (Jo 6:32–33, 50–51, 58). Falar de carne e sangue aponta para sua entrega na cruz, para sua morte em favor dos pecadores (Jo 6:51, 53–54), e participar disso não é um ato ritual ou literal, mas confiar totalmente em sua pessoa e em sua obra, recebendo pela fé aquilo que Ele fez para salvar (Jo 6:35, 40, 63).
João 6:63 mostra de forma clara e didática que Jesus não estava falando de comer carne de modo literal pois Ele afirma:
"O espírito é o que vivifica, a carne para nada aproveita; as palavras que eu vos disse são espírito e vida."
Com isso, Cristo ensina que a vida eterna não é transmitida por meios físicos, já que a carne, em sentido material, não aproveita para vivificar, mas é o Espírito quem concede a vida; além disso, quando Jesus diz que suas palavras são espírito e vida, o sentido não é literal ou místico, como se as palavras fossem a própria vida em si, mas que elas são o meio pelo qual o Espírito comunica a vida aos que creem.
Mas alguém pode insistir: "Tudo bem, então esqueçamos João e fiquemos com os Evangelhos Sinóticos; afinal, ali Jesus diz claramente: 'isto é o meu corpo' e 'isto é o meu sangue'". Ótimo. Sigamos essa lógica até o fim. Se a leitura for rigidamente literal, teremos de admitir que Jesus, naquela noite, possuía dois corpos ao mesmo tempo: um corpo vivo, completo, sentado à mesa, falando, comendo e bebendo com os discípulos, e outro corpo que ele teria pegado com as próprias mãos, levantado, agradecido e distribuído (Mateus 26:26–28; Marcos 14:22–24; Lucas 22:19–20). Em outras palavras, Jesus estaria segurando o próprio corpo enquanto ainda estava inteiro diante deles. Se isso não soa estranho, no mínimo soa curioso. Talvez o problema não esteja no texto bíblico, mas na insistência em forçar literalidade onde o próprio contexto aponta para linguagem simbólica e pedagógica.
E levado às últimas consequências, o argumento da transubstanciação cria uma situação quase surreal: dois corpos de Cristo coexistindo, os discípulos comendo esse corpo e (para completar o roteiro) o próprio Jesus participando da refeição de si mesmo. E não para por aí: a cena ainda se repetiria no Reino. O que deveria ser um momento espiritual profundo acaba parecendo um paradoxo digno de ficção teológica, transformando o simbolismo da ceia numa narrativa estranha e, convenhamos, bastante difícil de defender sem forçar a lógica.
Tomás de Aquino, teólogo medieval moldado por Aristóteles, tentou resolver o "paradoxo" da Última Ceia com uma saída elegante (e bem conveniente!). Ele disse que Jesus podia estar sentado à mesa e no pão ao mesmo tempo porque, na consagração, mudaria a substância (a essência invisível), mas não os acidentes (aparência, gosto, cheiro). Ou seja: tudo continua parecendo pão… mas, segundo a teoria, já não é pão. Transformação total sem qualquer evidência perceptível.
O problema? Quando a explicação depende de uma mudança invisível, impossível de verificar, a discussão sai do campo da evidência e entra no território do "confia porque eu disse". A estrutura lógica fica idêntica a outras doutrinas heréticas que alegam eventos espirituais datados e invisíveis (tipo o juízo investigativo de 1844 ou o reinado invisível de 1914). O roteiro é sempre o mesmo: "aconteceu, mas você não pode ver". Pronto: blindagem total contra questionamento.
E aí vem o efeito dominó. Se uma mudança de "substância" pode acontecer sem ninguém perceber absolutamente nada, então qualquer afirmação ontológica invisível passa a caber no mesmo molde. Poderíamos dizer, por exemplo, que o crente bebe literalmente o Espírito Santo, já que a própria Escritura usa linguagem de beber do Espírito e ser cheio dele (cf. Jo 7:37–39; 1Co 12:13). A verificabilidade empírica seria exatamente a mesma: zero. No fim das contas, não é só a conclusão que fica vulnerável (é o método). Quando o invisível vira prova suficiente, a autoridade fala… e o questionamento é tratado como rebeldia.
Mas, se alguém ainda insistir: "Ah, mas o texto é claro ao dizer que o pão é o corpo de Jesus", então aqui vai o ponto decisivo, encontrado em 1 Coríntios 10:17:
"Porque nós, embora muitos, somos um só pão e um só corpo; porque todos participamos do único pão."
Que legal, né? Nós também somos pão segundo Paulo! Agora eu pergunto: se o pão é literalmente o corpo de Cristo, e nós fazemos parte desse corpo, será que, na Santa Ceia ou na Eucaristia, estaríamos comendo a nós mesmos? Ora, se o pão é o corpo de Cristo e Paulo afirma que nós somos esse corpo, a que conclusão chegamos ao literalizar tudo ao mesmo tempo?
E para fortalecer mais ainda o exposto sobre 1 Coríntios 10:17, é importante ressaltar que a mesma frase citada pelos católicos, contida nos Evangelhos Sinóticos, também é mencionada um capítulo após, quando Paulo fala da Ceia. Diz o apóstolo:
"E, tendo dado graças, o partiu e disse: 'Isto é o meu corpo, que é dado por vós; fazei isto em memória de mim'. Semelhantemente, depois de cear, tomou também o cálice, dizendo: 'Este cálice é a nova aliança no meu sangue; fazei isto, todas as vezes que o beberdes, em memória de mim'. Porque todas as vezes que comerdes este pão e beberdes o cálice, anunciais a morte do Senhor, até que Ele venha." (1 Coríntios 11:24–26)
Mas é claro que para muitos defensores da transubstanciação não é bem assim. Tudo se trataria de uma má tradução; não que Paulo realmente esteja dizendo que nós, cristãos, sejamos um só pão, como atesta a versão acima citada. Por exemplo, uma versão literal das palavras de Paulo ficaria assim, como faz a Tradução Literal de Young:
"Porque um pão, um corpo, somos os muitos — pois todos do único pão participamos."
O problema de apelar para uma tradução hiperliteral não está no texto em si, mas no desprezo pelo contexto que circunda os trechos estudados. Mas vamos ser honestos e fazer uma análise mais cuidadosa deixando de lado a maioria das versões. Não há problemas!
Assim, considerando que a elipse é um recurso frequente no grego koiné, a formulação que talvez melhor preserva o sentido original do texto é a seguinte:
"Porque, assim como há um só pão, também nós, embora muitos, somos um só corpo; pois todos participamos do único pão."
A palavra "pois" serve como uma explicação do que foi anteriormente dito. Nós somos um só corpo porque ( ou pois) participamos de um só pão (que seria o corpo de Cristo). Contudo, se levado ao extremo, esse raciocínio conduz a uma consequência estranha: ao comer o pão, estaríamos, em certo sentido, comendo a nós mesmos, já que, enquanto membros do corpo de Cristo, também estaríamos incluídos nesse "único pão".
Mesmo optando por esta tradução mais favorável do versículo 17, ainda fica complicado. Por exemplo, muitos dirão que o pão é o corpo de Cristo, mas nós não seríamos literalmente esse corpo de Jesus. Em outras palavras, o texto pode ser literal para o pão, mas misteriosamente deixa de ser literal quando Paulo aplica a mesma linguagem aos próprios crentes. A literalidade é abraçada quando sustenta a doutrina e descartada quando expõe sua incoerência. Parece que, nesse ponto, o problema não está no versículo, mas no constrangimento que ele causa à interpretação.
Além disso, a exegese literalista entra em choque direto com o próprio conceito bíblico de "memória". Se a carne e o sangue de Jesus fossem literalmente presentes na Ceia (ainda mais sob o argumento de que Deus é atemporal) então o ato deixaria de ser uma lembrança. Afinal, não faz sentido falar em memória quando o objeto lembrado está fisicamente presente. Ninguém pega uma fotografia para "lembrar" de um amigo que já está sentado à sua frente; isso contradiz o próprio significado da palavra.
Como se não bastasse, o Novo Testamento usa o mesmo termo em Hebreus 10:3 para falar da "memória dos pecados". Evidentemente, ninguém jamais sustentou que os judeus estivessem repraticando os pecados por meio dos sacrifícios, mas que estavam sendo lembrados de pecados já cometidos. Da mesma forma, na Ceia, a memória não aponta para uma presença física literal, mas para a recordação consciente de um evento passado e consumado.
No fim das contas, forçar a ideia de que o pão vira carne de verdade cria mais problemas do que soluções. Jesus sempre usou exemplos do dia a dia para ensinar verdades profundas: Ele disse que era a porta, a videira e a luz, mas ninguém sai por aí procurando dobradiças ou folhas Nele. Por que seria diferente com o pão? Quando tentamos transformar um momento de fé em uma explicação científica invisível, acabamos perdendo o foco principal. A Santa Ceia não é um "milagre místico" onde comemos Deus; é um banquete de gratidão. O pão e o vinho servem para nos fazer lembrar, com o coração cheio, que Jesus já fez tudo o que era necessário na cruz. Não precisamos de teorias complicadas ou mudanças "invisíveis" para sentir a presença de Deus. O que importa não é o que acontece com o pão no estômago, mas o que acontece com a nossa fé quando paramos para lembrar que Ele morreu por nós e que, um dia, voltará para nos buscar.

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