Textos que aniquilam o aniquilacionismo

 


Que a paz de nosso Senhor esteja com todos! Nesta publicação farei uma análise detalhada de vários textos que claramente anulam uma visão aniquilacionista no texto sagrado. No lugar de mostrar textos que trazem o sentido de sofrimento sem fim para os injustos, farei questão de mostrar aqueles que deixam óbvio o aniquilacionismo ser inconsistente com a mensagem bíblica. Ao contrário do que muitos imaginam, Cristo e os apóstolos também rejeitaram essa visão escatológica. 

Mateus 18:6-8

“[6]  Qualquer, porém, que fizer tropeçar a um destes pequeninos que creem em mim, melhor lhe fora que se lhe pendurasse ao pescoço uma grande pedra de moinho, e fosse afogado na profundeza do mar. [7]  Ai do mundo, por causa dos escândalos; porque é inevitável que venham escândalos, mas ai do homem pelo qual vem o escândalo! [8] Portanto, se a tua mão ou o teu pé te faz tropeçar, corta-o e lança-o fora de ti; melhor é entrares na vida manco ou aleijado do que, tendo duas mãos ou dois pés, seres lançado no fogo eterno.” Mateus 18:6-8 ARA

O primeiro texto citado já é praticamente uma bomba atômica. O texto acima fala claramente sobre aqueles que fazem os cristãos (chamados de pequeninos) tropeçarem na fé. Segundo Jesus, para essas pessoas, seria melhor morrer afogado do que enfrentar o juízo divino no fogo eterno. Ora, se o destino final dos ímpios fosse apenas a extinção, qual seria a lógica desse alerta? Se o resultado final é o mesmo, por que alguém preferiria antecipar sua própria destruição? Esse argumento só faz sentido se o juízo for algo ainda pior do que a própria morte.

Mas muitos tentarão argumentar de forma criativa, dizendo que não é bem assim. Afinal, nem tudo deve ser interpretado literalmente. Jesus não está mandando amputarmos nossos membros de fato, e ninguém entrará no Reino aleijado, certo?

Esse é um argumento válido até certo ponto, pois o texto fala principalmente de renúncia. O próprio Salmo 38 ilustra bem essa ideia:

"Mas eu, como surdo, não ouvia e, como mudo, não abri a boca. Assim, sou como homem que não ouve, e em cuja boca não há reprovação." (Salmos 38:13-14, ARC)

No entanto, dependendo da circunstância, o texto também pode ser entendido literalmente. Afinal, muitos, por amor ao Reino, não perderam apenas uma mão ou um membro, mas a própria vida.

Afinal, o simples fato de um ensino estar próximo de uma linguagem hiperbólica, como a de cortar ou tirar  membros, não significa que ele também deva ser interpretado como hipérbole. Em Mateus 5, por exemplo, a fala de Jesus sobre arrancar o olho e cortar a mão aparece praticamente ao lado de uma instrução moral direta sobre o olhar e o desejo, e ninguém considera essa última apenas uma força de expressão retórica. Jesus afirma de forma objetiva:

"[27] Ouvistes que foi dito: Não adulterarás. [28] Eu, porém, vos digo: qualquer que olhar para uma mulher com intenção impura, no coração, já adulterou com ela. [29] Se o teu olho direito te faz tropeçar, arranca-o e lança-o de ti; pois te convém que se perca um dos teus membros, e não seja todo o teu corpo lançado no inferno. [30] E, se a tua mão direita te faz tropeçar, corta-a e lança-a de ti; pois te convém que se perca um dos teus membros, e não vá todo o teu corpo para o inferno. [31] Também foi dito: Aquele que repudiar sua mulher, dê-lhe carta de divórcio. [32] Eu, porém, vos digo: qualquer que repudiar sua mulher, exceto em caso de relações sexuais ilícitas, a expõe a tornar-se adúltera; e aquele que casar com a repudiada comete adultério." (Mateus 5:27-32 ARA)

Esse texto mostra que a proximidade literária não determina o gênero da linguagem. Jesus alterna, no mesmo discurso, entre figuras fortes e declarações normativas, sem que uma relativize a outra.

O fato é que, independentemente de como se interprete a questão dos membros, a comparação entre morrer afogado e o destino final perde o sentido se, no fim, ambos resultarem na mesma situação. Se o juízo divino fosse apenas a extinção, qual seria a real diferença entre morrer antes ou depois? Aliás, o próprio Jesus até entraria em contradição, pois a segunda opção seria preferível. Aliás, todo mundo quer adiar a sua morte. A advertência de Jesus só faz sentido se o castigo final for algo muito pior do que simplesmente deixar de existir.

Mateus 26:24

[24] O Filho do Homem vai, como está escrito a seu respeito, mas ai daquele por intermédio de quem o Filho do Homem está sendo traído! Melhor lhe seria se não tivesse nascido! Mateus 26:24 

Este é um texto que deixa qualquer descrente no castigo eterno triste. Ora, se o castigo é apenas a inexistência, por que seria melhor Judas não existir para não sofrer o juízo, não é mesmo? E novamente a expressão "ai" traz a ideia de algo ruim que virá sobre o ex-apóstolo.

Entretanto, há até uma tentativa criativa de tentar reinterpretar essas palavras. Isso porque fraseologias semelhantes são usadas no Antigo Testamento em que o contexto não é de castigo eterno. 

Um caso que não merece tanta atenção é o de Jó. Ele, ao perder tudo e até os filhos declara:

[1] Depois disto, passou Jó a falar e amaldiçoou o seu dia natalício. [2] Disse Jó: [3] Pereça o dia em que nasci e a noite em que se disse: Foi concebido um homem! [4] Converta-se aquele dia em trevas; e Deus, lá de cima, não tenha cuidado dele, nem resplandeça sobre ele a luz. [5] Reclamem-no as trevas e a sombra de morte; habitem sobre ele nuvens; espante-o tudo o que pode enegrecer o dia. [6] Aquela noite, que dela se apoderem densas trevas; não se regozije ela entre os dias do ano, não entre na conta dos meses. [7] Seja estéril aquela noite, e dela sejam banidos os sons de júbilo. [8] Amaldiçoem-na aqueles que sabem amaldiçoar o dia e sabem excitar o monstro marinho. [9] Escureçam-se as estrelas do crepúsculo matutino dessa noite; que ela espere a luz, e a luz não venha; que não veja as pálpebras dos olhos da alva, [10] pois não fechou as portas do ventre de minha mãe, nem escondeu dos meus olhos o sofrimento. [11] Por que não morri eu na madre? Por que não expirei ao sair dela? Jó 3:1-11 ARA

Mas sejamos sinceros: Jó, em um momento de profunda tristeza, chega a desejar não ter nascido e até amaldiçoa o dia do seu nascimento. Diante da perda de seus bens, de seus filhos e do intenso sofrimento, é compreensível que alguém, tomado pela angústia, passe a desejar ou até buscar a própria morte. Esse, porém, não é o caso de Jesus ao falar de Judas em Mateus 26:24, pois ali não há desespero ou lamento pessoal, mas uma declaração clara e consciente sobre a gravidade do que estava para acontecer.

Agora o outro uso que possivelmente pode ser usada pelos nossos amigos:

"[1] Vi ainda todas as opressões que se fazem debaixo do sol: vi as lágrimas dos que foram oprimidos, sem que ninguém os consolasse; vi a violência na mão dos opressores, sem que ninguém consolasse os oprimidos. [2] [conclusão] Pelo que tenho por mais felizes os que já morreram, mais do que os que ainda vivem; [3] porém mais que uns e outros tenho por feliz aquele que ainda não nasceu, [explicaçãoque não viu as más obras que se fazem debaixo do sol." (Eclesiastes 4:1-3)

E mais um:

"[1] Há um mal que tenho visto debaixo do sol e que mui frequente é entre os homens: [2] um homem a quem Deus deu riquezas, fazenda e honra, e nada lhe falta de tudo quanto a sua alma deseja, mas Deus não lhe dá poder para daí comer; antes, o estranho lho come; também isso é vaidade e má enfermidade. [3] Se o homem gerar cem filhos e viver muitos anos, e os dias dos seus anos forem muitos, e se a sua alma se não fartar do bem, e além disso não tiver um enterro, digo que um aborto é melhor do que ele, [4] porquanto debalde veio e em trevas se vai, e de trevas se cobre o seu nome. [5] E, ainda que nunca viu o sol, nem o conheceu, mais descanso tem do que o tal. [6] E certamente, ainda que vivesse duas vezes mil anos, mas não gozasse o bem, não vão todos para um mesmo lugar?" (Eclesiastes 6:1-6 ARC)

Antes de analisarmos as passagens de Salomão, é essencial compreender sua visão escatológica. A ressurreição dos mortos só foi revelada com clareza posteriormente, como em Isaías 26:19, ou seja, posteriormente.

Salomão adota uma perspectiva terrena, sem uma noção clara do juízo final. Em Eclesiastes 9:5-6, ele afirma que os mortos "já não têm parte alguma em coisa alguma do que se faz debaixo do sol". Além disso, chama a sepultura de "morada eterna" (Eclesiastes 12:5), reforçando sua ênfase na vida presente, sem uma clara revelação da ressurreição e do destino final da humanidade.

Vamos começar analisando o primeiro texto, que afirma ser melhor não ter nascido do que testemunhar a injustiça no mundo. Essa passagem não faz uma afirmação absoluta, mas explica em que aspectos essa condição seria preferível.

Um exemplo disso pode ser encontrado nos capítulos seguintes de Eclesiastes, onde Salomão declara que é melhor ir a uma casa de luto do que a um banquete e que a tristeza é melhor do que a alegria (Eclesiastes 7:2-3). Obviamente, ninguém tomaria essas afirmações de forma  universal. No entanto, o próprio Salomão esclarece o contexto: essas experiências levam à reflexão e ao amadurecimento, tornando-se, NESTE ASPECTO, mais proveitosas.

Já em Eclesiastes 4, da mesma forma do que foi apresentado anteriormente sobre o luto, o autor não está dizendo, nem de forma literal nem figurada, que quem não nasceu é melhor em todos os sentidos que os vivos. Neste capítulo, Salomão afirma que aquele que não chegou a nascer leva vantagem sobre os vivos porque não presenciou as injustiças, opressões e coisas horrendas que marcam a realidade do mundo debaixo do sol. É NESTE SENTIDO QUE ELE É MAIS FELIZ.

Em Eclesiastes 6, o contraste específico é entre uma longa vida vazia e o não viver. O texto não opõe vida e morte em termos absolutos, nem discute destino eterno, mas compara duas experiências existenciais. De um lado, está o homem que vive muitos anos, possui riquezas, honra e tudo o que a alma deseja, mas não recebe de Deus o dom de desfrutar do bem; sua vida, embora longa, é marcada pela frustração, pela vaidade e pela tristeza de ver outros usufruírem do fruto do seu próprio suor. De outro lado, está o não viver, que não chega a experimentar a dureza dessa realidade "debaixo do sol".

Para Salomão, o não viver tem uma vantagem muito específica: não ter passado pela frustração acumulada de uma longa vida vazia, nem pela angústia de trabalhar, ajuntar e, ao final, não usufruir de nada. Como ambos caminham para o mesmo destino (a sepultura, o pó) a diferença não está no fim, mas no percurso. E o percurso (ou falta de percurso!) do natimorto é mais vantajoso. Um carrega o peso de anos de vazio; o outro não foi exposto a esse peso.

Agora que já entendemos o sentido das expressões usadas em Jó e em Eclesiastes, e sabendo que frases iguais não significam, necessariamente, o mesmo contexto, podemos analisar Mateus 26:24. Ali aparece a palavra "ai", que funciona como um anúncio claro de juízo divino sobre Judas. Além disso, Jesus acrescenta a expressão "melhor lhe fora", deixando evidente que não existir seria preferível a viver e enfrentar aquela punição. Ora, qual seria o sentido de não existir para escapar de um juízo que, segundo o aniquilacionismo, também resultaria na inexistência? Essa afirmação só faz sentido se o juízo for algo muito mais grave do que simplesmente deixar de existir.

Levando também em conta a perspectiva progressiva da ressurreição, brevemente abordado antes, se Judas tivesse levado uma vida próspera e, ao morrer, simplesmente fosse extinto sem jamais ressuscitar (conforme a concepção da época de Jó e Salomão), a declaração de Jesus perderia completamente o sentido. Aliás, é assim que pensa os ímpios na atualidade. Acreditam que, como só existe esta vida, podem aprontar à vontade, pois depois o que sobra é a inexistência.

Dentro da lógica do aniquilacionismo, a fala de Jesus sobre Judas perde o impacto. Seria o mesmo que dizer algo como "seis é maior que  meia dúzia". Se o destino final de Judas fosse apenas deixar de existir, a ideia seria mais ou menos esta: "seria melhor Judas não existir para não receber a pena de não existir". Isso é um raciocínio circular e sem peso moral

A frase de Jesus só faz sentido como advertência séria se o futuro de Judas for pior do que simplesmente deixar de existir. Só assim "não ter nascido" pode ser apresentado como algo preferível. Caso contrário, as palavras de Cristo se tornam apenas uma expressão vazia, sem a gravidade que o "ai" exige.

Hebreus 10:28,29

"Quem tiver rejeitado a lei de Moisés morre sem misericórdia, pelo depoimento de duas ou três testemunhas. [29] Imaginem quanto mais severo deve ser o castigo daquele que pisou o Filho de Deus, profanou o sangue da aliança com o qual foi santificado e insultou o Espírito da graça!" (Hebreus 10:28-29 NAA)

O texto de Hebreus 10:29 é autoexplicativo contra o aniquilacionismo. O castigo final é muito mais severo do que a punição da lei de Moisés, que se limitava à morte física, perspectiva aniquilacionista. A estrutura do versículo é uma comparação explícita: assim como a desobediência à lei gerava penalidade, desprezar o Filho de Deus e profanar o sangue da aliança merece uma punição ainda mais grave. 

Os aniquilacionistas costumam responder com ar de vitória: "O castigo é maior porque a lei de Moisés produzia morte temporária, enquanto a nova aliança produz morte eterna. Pronto."  Como se isso encerrasse a questão. Não encerra. Não resolve nada.

Agora imagine que o cabra já morreu lá na lei de Moisés. Apedrejado, fim da linha. Aí ressuscita no juízo final, todo tremendo, joelho batendo. Jesus fala sério: "Agora, maldito, o castigo vai ser muito pior do que o da lei de Moisés."

 O homem arregala o olho: "Pior como, Senhor?"

 Jesus responde: "Você vai morrer de novo."

 O sujeito coça a cabeça e pensa: "Mas pera aí… eu já morri uma vez! Isso é castigo maior ou é replay? Pior em que lugar, chefia?"

É bom lembrar que lógica interna de Hebreus 10:29 funciona assim: primeiro, ele lembra que, pela Lei de Moisés, o castigo máximo era morrer. Depois, ele diz que, agora, o castigo será "muito mais severo". Pela própria lógica, isso só faz sentido se o castigo for diferente, e não o mesmo. Se fosse o mesmo tipo de castigo (morrer) apenas com outra duração, a comparação quebraria, porque não haveria um "mais", apenas uma repetição. Quando alguém já recebeu o castigo máximo, não existe um "ainda maior" do mesmo tipo. Por isso, dentro do próprio raciocínio do texto, o autor obriga o leitor a entender que se trata de um castigo diferente em natureza, não apenas o mesmo castigo estendido no tempo.

É claro que alguém afirmará até esse ponto que o loga de fogo é chamado de "segunda morte" (Ap 20:14) , mas não por ser do mesmo tipo que a primeira. A primeira é morte física, comum a todos, ocorrendo antes do juízo. A segunda é exclusão total e definitiva, física e espiritual, do Reino de Deus para um lugar de sofrimento infindável, após o juízo final. Logo, ambas são chamadas de 'morte" por analogia, não por identidade

Como se não bastasse, a lei de Moisés não tinha nenhum mecanismo de retorno à vida: morreu sob a lei, acabou, e ponto final. Nesse sentido, a pena legal já era potencialmente tão "eterna" quanto a suposta morte eterna do aniquilacionismo, pois nada na própria lei revertia a morte. O ímpio só volta à vida porque Deus soberanamente decide ressuscitá-lo; se isso não acontecesse, quem morresse pela lei continuaria morto para sempre. Dizer, então, que Hebreus 10:29 fala de um "castigo mais severo" que seria apenas deixar de existir é transformar o texto num paradoxo: a nova aliança ameaçaria com o mesmo resultado básico da lei antiga. No fim das contas, o aniquilacionismo chama de punição maior aquilo que a lei já produzia (e ainda quer vender isso como progresso teológico).

Talvez nossos amigos tentem apelar para o contexto imediato, que fala do fogo que há de devorar os adversários (Hebreus 10:27), mas esse argumento é frágil. Esse mesmo fogo, que provavelmente esteja personalizado, aparece novamente em Hebreus 12, onde Deus é chamado de "fogo consumidor" (Hebreus 12:29). Trata-se de uma linguagem que aponta para o juízo de Deus que, como um fogo devorador, ninguém escapa ou consegue resistir. O próprio autor adverte:

"Vede que não rejeiteis ao que fala; porque, se não escaparam aqueles que rejeitaram quem os advertia na terra, muito menos escaparemos nós, se nos desviarmos daquele que fala dos céus."
(Hebreus 12:25)

Além disso, essa expressão usada em Hebreus é tirada diretamente de Deuteronômio 4:24, onde o Senhor é descrito como "fogo devorador". Nesse contexto, o texto fala de julgamentos de Deus na história, como exílio (Dt 4:27) e destruição (Dt 4:25–26). Assim, a linguagem do fogo devorador de Hebreus representa a ação judicial irresistível de Deus, e não necessariamente a literalidade das palavras.

Diante de tudo isso, o aniquilacionismo não falha por falta de textos bíblicos, mas porque não consegue manter a própria lógica da Bíblia. Ele faz com que os alertas de Jesus percam o sentido, quebra a ideia de que o juízo final é mais sério do que as punições da lei antiga e transforma comparações claras das Escrituras em palavras sem peso real. No fim, essa visão esvazia a gravidade do juízo de Deus e torna incoerentes advertências que deveriam soar como as mais solenes de toda a revelação bíblica.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

O conceito de fogo eterno no século 2

Jesus deveria vir em sua geração (Mateus 10:23)?

O conceito de céu e inferno em Isaías