Como explicar as duas genealogias do Senhor Jesus?




"Eliúde gerou a Eleazar; Eleazar gerou a Matã;Matã gerou a Jacó. Jacó gerou a José, marido de Maria, da qual nasceu Jesus, que se chama o Cristo (Mateus 1:15–16)

 "E o mesmo Jesus começava a ser de cerca de trinta anos, sendo (como se cuidava) filho de José, filho de Eli. Eli, filho de Matate, Matate, filho de Levi…" (Lucas 3:23–24)

 A paz do Senhor! Hoje falaremos de um tema que, além de fascinante, costuma gerar muitas dúvidas entre os cristãos: as duas genealogias de Jesus apresentadas nos evangelhos de Mateus e Lucas. À primeira vista, alguns pontos parecem controversos. O primeiro é o fato de José, marido de Maria, aparentemente possuir dois pais (Jacó, segundo Mateus, e Eli, segundo Lucas). O segundo diz respeito à linhagem davídica: enquanto Mateus segue a descendência de Davi por Salomão, Lucas o faz por Natan. Diante dessas diferenças, surge inevitavelmente a pergunta: há contradição ou discrepância entre os evangelistas? A resposta, como você deve esperar, é NÃO! 

Em primeiro lugar, é importante salientar que ambos os evangelhos foram escritos para públicos diferentes. Mateus escreveu seu evangelho para judeus; já Lucas, para gentios. Isto é: públicos diferentes são o mesmo que objetivos diferentes. Enquanto Mateus queria mostrar Jesus como o Messias Prometido a Israel, Lucas queria mostrar a humanidade de Jesus. Gostaria que você prestasse atenção no evangelho segundo Mateus e a carta de Tiago, para entender que o público muda o conteúdo. Ambos enfatizam muito os mandamentos, pois foram documentos escritos para judeus, e o maior problema dos judeus era o desprezo pela lei (principalmente os mandamentos relacionados ao amor ao próximo- Is. 1). Já as cartas de Paulo parecem desprezar a lei de Moises (embora não fosse o caso), pois a meta de Paulo era provar que os gentios, os destinatários das cartas, não tinham a necessidade de se judaizarem. O mesmo ocorre com as genealogias. Mateus enfatiza Abraão e Davi, os principais patriarcas dos israelitas, além de ir por Salomão, descrevendo assim a linhagem messiânica, já Lucas não tem essa preocupação, começando com Deus e Adão (ou seja, relacionando Jesus a toda a humanidade, e não apenas aos judeus) e depois indo por Natan no lugar de Salomão.

  Em segundo lugar, (além de ser a mesma que a de Mateus de Davi a Abraão) de Davi a Adão e Deus, a genealogia  de Lucas está em completa harmonia com o Antigo Testamento, provando que Lucas tinha noção das Sagradas Escrituras. A pergunta então seria porque Lucas coloca Natan no lugar de seguir com Salomão. Afinal há os nomes dos sucessores de Davi a até a deportação para a Babilônia, pela linhagem de Salomão NO ANTIGO TESTAMENTO (1 Cr 3: 10-24), e Lucas poderia fazer uso deles, como fez Mateus. 

O ponto que deve ficar em destaque é que, de Adão até um pouco após o exílio babilônico, os nomes estão claramente registrados no livro de Crônicas (1Cr 1:1; 1Cr 2:1–15; 1Cr 3:1–24), fonte que muito provavelmente foi consultada tanto por Lucas quanto por Mateus (Lc 3:23–38; Mt 1:1–17). Lucas demonstra conhecer e seguir fielmente essa tradição genealógica preservada em Crônicas, conforme atestada na Septuaginta; contudo, ao chegar em Davi, ele faz uma mudança consciente, passando a seguir a linhagem de Natan em vez da de Salomão (Lc 3:31). E isso é decisivo: Lucas poderia ter continuado pela linhagem real até pouco tempo após o cativeiro, como faz Mateus (Mt 1:6–11), pois o material estava disponível e bem estabelecido. O fato de não o fazer não aponta para desconhecimento ou erro, mas para uma opção teológica, coerente com seu propósito narrativo.

Se fosse o Novo Testamento uma farsa, como alegam alguns anticristãos, que sentido faria Lucas citar perfeitamente a genealogia de Deus a Davi (que é muito maior) e errar de Salomão até a Babilônia (que é muito menor) sendo que a mesma também é encontrada no Velho Testamento? Pensar em um erro por parte de Lucas é que acreditar  que um cavalo que ganhou dez corridas de outros também corredores possa perder para um burro de carga! No entanto, se ele tivesse citado em harmonia com Mateus até o período babilônico e depois divergisse, aí sim, poderíamos pensar em uma contradição. A RESPOSTA MAIS CORRETA É: LUCAS TINHA UM OBJETIVO DIFERENTE DE MATEUS!!!!

  E sobre o objetivo de ambos os evangelistas, temos duas opiniões. A primeira é que  Mateus traça a genealogia de José enquanto Lucas traça a de Maria. O motivo de Maria não ser citada por Lucas seria porque mulheres não aparecem no centro de genealogias judias, além de o genro (José), naquela cultura, ser considerado um filho (de Eli).

Outro ponto que reforça a ideia de essa ser a genealogia de Maria é o destaque que Lucas dá às mulheres em seu relato. Ao longo do evangelho, ele valoriza figuras femininas como Maria (Lc 1:26–38; 2:19), Isabel (Lc 1:5–45), Ana, a profetisa (Lc 2:36–38), Marta e Maria (Lc 10:38–42), além de mencionar mulheres que acompanhavam Jesus e sustentavam o ministério com seus bens (Lc 8:1–3). Diferente de Mateus, cuja ênfase recai sobre José (Mt 1:18–25; 2:13–23), em Lucas o foco narrativo está claramente em Maria, o que dá suporte à leitura de que a genealogia apresentada segue sua linhagem.

 A segunda, a qual eu acredito que seja a mais coerente, justifica essa suposta discrepância pela lei do levirato. Esta é a interpretação mais antiga dentro do Cristianismo. Eusébio de Cesareia, um cristão que viveu no século IV, no Livro 1, Capítulo 7 de História Eclesiástica, cita um trecho de um livro de Sexto Júlio Africano, outro cristão que viveu por voltado século II, no qual essa suposta contradição entre as genealogias é explicada conforme mostrarei à frente. Segundo Africano, a tradição diz que Matan e Matate se casaram com a mesma mulher (se foi por divórcio ou viuvez, não se sabe) que se chamava Estha (se o nome é este, é irrelevante para o entendimento). Quando a mulher se casou com Matate, da linhagem de Natan, ela gerou Eli; ao se casar com Matan, da linhagem de Salomão, nasceu Jacó. Eli e Jacó eram, portanto, irmãos uterinos. Na lei de Moisés, quando um marido morre sem filhos, o irmão se casa com a viúva para gerar um filho para o falecido e, assim, garantir a sua descendência (Dt 25:5). A isso, como já mencionado anteriormente, chamamos de levirato. E esse foi o caso! Eli morreu sem filhos, e seu irmão por parte de mãe, Jacó, casou-se com a mulher e gerou José, QUE FOI O MARIDO DE MARIA E O PAI, COMO SE CUIDAVA, DE NOSSO SENHOR JESUS!

 O ponto forte dessa interpretação é que ela consegue harmonizar os dados bíblicos sem recorrer a explicações forçadas ou especulativas, como acontece na primeira proposta. Além disso, há um fator muito importante a seu favor: sua antiguidade. Júlio Africano viveu entre a segunda metade do século II e a primeira metade do século III d.C., ou seja, estava bem mais próximo das tradições cristãs originais. 

No texto original, Africano comete apenas um pequeno erro de cópia, ao citar Melqui como pai de Eli, quando o correto, pelo contexto, é Matate. Esse detalhe, porém, é secundário e não afeta em nada o valor da explicação nem a coerência da harmonização apresentada.

RESUMO:



Portanto, quando analisamos as genealogias de Mateus e Lucas, percebemos que o que muitos chamam de contradição é, na verdade, algo bem diferente: trata-se de riqueza teológica e cuidado histórico. Mateus mostra que Jesus tem o direito legal ao trono de Davi por meio de Salomão, falando diretamente aos judeus. Já Lucas destaca que Jesus veio para toda a humanidade e resolve a diferença nas genealogias por uma explicação teológica bem pensada, possivelmente ligada à lei do levirato. Assim, longe de ser um erro, a existência das duas genealogias confirma que cada evangelista escreveu com um objetivo claro: mostrar que Jesus de Nazaré é ao mesmo tempo o Rei prometido a Israel e o Salvador que vem de Adão para toda a humanidade.

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