A crença na mortalidade da alma é lógica?
Que a paz do Senhor esteja com todos! Hoje abordarei um tema bastante recorrente nas redes virtuais: a alegação de que a crença na mortalidade da alma (entendida como total inconsciência após a morte) seria uma posição logicamente superior. A proposta aqui não é realizar uma análise bíblica do assunto, mas examinar essa afirmação à luz do próprio critério frequentemente utilizado por seus defensores contra nós: a coerência.
O mortalismo e a Trindade
O primeiro problema que trarei diz respeito à relação entre mortalismo e trinitarianismo. Ora, se a morte é definida como ausência total de consciência e Jesus é Deus, somos levados a uma conclusão curiosa: durante três dias teria existido uma espécie de "Bindade". Em outras palavras, o Deus único tornar-se-ia divisível e, nesse intervalo, a terceira pessoa teria simplesmente passado à inexistência.
Por outro lado, se Cristo é Deus e, enquanto divindade, permaneceu consciente, então (segundo a própria lógica de nossos amigos) Ele não morreu. Isso entra em choque direto com a Escritura, que afirma que Jesus participou das mesmas coisas que nós, assumindo a mesma condição humana e submetendo-se à mesma morte real. Como declara Hebreus:
"Visto, pois, que os filhos têm participação comum de carne e sangue, também ele, igualmente, participou das mesmas coisas, para que, pela morte, destruísse aquele que tem o poder da morte, isto é, o diabo, e livrasse todos os que, pelo medo da morte, estavam sujeitos à escravidão por toda a vida" (Hb 2:14–15).
Ou seja, não se trata de uma morte distinta, metafórica ou conveniente, mas da mesma morte humana que alcança todos os homens. Qualquer tentativa de suavizar esse fato transforma a morte de Cristo, segundo os próprios critérios mortalistas, em algo meramente ilustrativo; uma morte, digamos, "de mentirinha".
É justamente diante desse impasse lógico que muitos mortalistas acabam abraçando o unitarismo. Afinal, seria muito mais confortável aplicar o mortalismo a uma criatura do que ao Criador. Eu me arrisco até afirmar que ambas as crenças seriam até irmãs por complementação. Afinal, mantendo uma cristologia trinitariana ou mesmo unicista, as coisas simplesmente não fecham. Em ambos os casos, o mortalismo se mostra incapaz de sustentar coerentemente aquilo que afirma defender.
A antropologia
Um ponto interessante é que boa parte dos ateus, ao negarem a existência da alma, acabam adotando (mesmo que nem sempre de forma consciente) uma visão determinista do ser humano. Se tudo o que existe é matéria, então pensamentos, desejos e decisões são reduzidos a processos físico-químicos no cérebro. Nesse modelo, a mente não é um agente livre, mas um produto do funcionamento biológico. A escolha deixa de ser uma causa real e passa a ser um efeito de genética, ambiente, história pessoal e estados neurológicos. Assim, muitos ateus, por coerência com seu materialismo, veem o livre-arbítrio mais como uma ilusão útil do que como uma realidade objetiva, abraçando um determinismo prático no qual o ser humano reage às causas em vez de escolher de forma verdadeiramente livre.
Voltando para o mortalismo, ele diz que, assim como boa parte dos ateus, que o ser humano é só corpo e cérebro. Sem alma espiritual real. Tradução honesta: decisões são produtos de química, traumas, genética, ambiente e impulsos neurológicos. A "vontade" vira um efeito colateral do sistema.
Agora encare o homicida. Se ele matou porque seu cérebro, sua história, seus traumas e seus impulsos o levaram a isso, então, no modelo mortalista, ele não escolheu no sentido forte. Ele reagiu. Coloque o mesmo cérebro, a mesma história, os mesmos gatilhos (o mesmo crime acontece).
Ou seja: ele não podia agir diferente. Mas aí vem o juízo final, e Deus o condena como se ele fosse um agente plenamente livre. Isso é uma contradição brutal. O sistema quer duas coisas ao mesmo tempo: A primeira é dizer que o homem é só biologia; a segunda, tratá-lo como se fosse mais que biologia quando convém. Isso é incoerência teológica travestida de doutrina.
Nesse modelo, o assassino é, no fundo, um produto de causas que ele não escolheu. Mesmo assim, Deus o julga como se ele tivesse controle soberano sobre essas causas. Resultado? Um Deus que pune pessoas por como foram "programadas" pela soma de fatores que não controlaram. Isso não é justiça. Isso é responsabilizar alguém por defeitos estruturais do próprio sistema.
O mortalismo cria um Deus que exige liberdade total, mas oferece apenas condicionamento parcial. Exige escolha plena, mas entrega biologia. Cobra como se houvesse alma livre, mas nega que ela exista.
Em resumo, o mortalismo quer o bônus da responsabilidade moral sem pagar o preço da agência real. Quer condenação total com liberdade reduzida. Isso não é teologia coerente (é um sistema que, levado a sério, faz Deus parecer um juiz que pune criaturas por limites que nunca escolheram ter).
O juízo
Outro problema no mortalismo é o juízo. A Bíblia descreve este dia como o dia das prestações de contas, o tribunal do Deus vivo, diante do qual os ímpios deveriam tremer. Deveriam. Mas, no juízo mortalista, não há motivo algum para tremer.
Segundo essa doutrina, o ímpio é apagado, depois ressuscita… para apagar de novo. Eis a grande sentença! Eis o castigo aterrador! Que terror! Que espanto! Que condenação inexorável! Nossa, que coisa assustadora! Só que não!
Que tipo de juiz é esse que convoca o réu do nada, só para devolvê-lo educadamente ao nada? Que tipo de justiça é essa que premia o condenado com alguns minutos extras de existência? Chamam isso de juízo; eu chamaria de recreio escatológico.
Na prática, isso é uma bênção disfarçada. Pelo menos os coitadinhos terão mais alguns minutos de vida após ressuscitar: dá tempo de abraçar os parentes, se despedir, trocar lágrimas, e então… apagar de novo. Eis o grande terror do inferno mortalista: uma despedida com lenço e música triste.
Assim, o dia mais solene da história da humanidade vira uma encenação. O tribunal eterno vira teatro. A condenação vira favor. E o juízo, que deveria fazer os ímpios rangerem os dentes, vira apenas uma breve pausa antes do nada.
Um povo que brinca literalmente com fogo
Outro erro mortalista é simplesmente apostar a própria alma (mesmo dizendo que ela nem existe) em suas convicções. Para eles, a imortalidade da alma não é apenas antibíblica: é pagã, é satânica, é demoníaca. Ou seja, não basta rejeitar; é preciso exorcizar. Não basta discordar; é preciso tratar como coisa do inferno.
Algo muito parecido aconteceu quando os fariseus atribuíram as obras de Jesus ao demônio. A resposta de Cristo não foi apenas dura; foi titânica: eles jamais teriam perdão (Mt 12:31–32; Mc 3:28–30). Em outras palavras, já tinham comprado passagem sem volta para o inferno. Não foi um simples erro teológico; foi uma acusação espiritual de gravidade máxima, pois chamaram a obra do Espírito Santo de obra de Satanás (Lc 11:14–23; Mt 12:24).
Os mortalistas fazem essencialmente a mesma coisa. Se estiverem certos (infeliz e tristemente não estão!), beleza: ganharam o debate. Só isso. Mas se estiverem errados, o problema não é pequeno. Não é detalhe doutrinário. É coisa séria. Muito séria. Não seria exagero sugerir algo na mesma linha do que aconteceu entre Jesus e os fariseus.
Aqui não estamos falando só de interpretação bíblica, mas de atribuir ao diabo aquilo que se rejeita por convicção pessoal. Isso não é zelo pela verdade; é brincar literalmente com fogo. E nesse tipo de jogo, não é o argumento que se perde; é o próprio juízo.
Diante de tudo isso, a tese da superioridade lógica do mortalismo se mostra não apenas frágil, mas profundamente incoerente, pois falha na cristologia ao não saber lidar com a morte real do Deus-homem, falha na antropologia ao negar a alma e ainda assim exigir responsabilidade moral plena, falha no juízo ao transformar o tribunal eterno em uma encenação sem verdadeiro terror ou peso moral, e falha espiritualmente ao tratar como demoníaca uma doutrina historicamente confessada pela fé cristã; o resultado é um sistema que se pretende mais racional, mas que, levado às últimas consequências, produz um Deus menos justo, um juízo esvaziado, uma responsabilidade incoerente e uma teologia que só se sustenta à custa de concessões estruturais, mostrando que, longe de ser a posição mais lógica, o mortalismo é, na verdade, uma construção instável que sacrifica pilares centrais da fé para não ruir.

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