O [mau] uso Preterista de Mateus 24:29


"Logo em seguida à tribulação daqueles dias, o sol escurecerá, a lua não dará a sua claridade, as estrelas cairão do firmamento, e os poderes dos céus serão abalados. Então, aparecerá no céu o sinal do Filho do Homem; todos os povos da terra se lamentarão e verão o Filho do Homem vindo sobre as nuvens do céu, com poder e muita glória." (Mateus 24:29-30 ARA)

A paz do Senhor Jesus a todos! Os preteristas interpretam Mateus 24:29 como uma referência ao juízo de Cristo sobre Jerusalém no ano 70 d.C., associando os sinais cósmicos mencionados, como o escurecimento do sol, da lua e a queda das estrelas, a uma linguagem simbólica frequentemente usada pelos profetas do Antigo Testamento. Para eles, essas descrições representam a queda de sistemas políticos e religiosos, e não eventos literais, indicando que a "vinda" de Cristo ocorreu naquele contexto histórico. Essa abordagem, no entanto, levanta questões sobre a aplicação desses textos e o alcance real das palavras de Jesus.

A lógica preterista

Você pode até considerar que interpretar Mateus 24:29 como referência exclusiva à destruição de Jerusalém no ano 70 seja um exagero preterista, coisa de quem força o texto até distorcê-lo. E, embora eu considere o preterismo uma posição equivocada e teologicamente problemática, não posso negar que existe algum fundamento textual para essa leitura, ainda que seja um fundamento fraco e insuficiente. Afinal, a linguagem de queda cósmica não é inédita nas Escrituras; ela aparece em contextos de juízo histórico, como no oráculo contra o Egito.

Observe, por exemplo, o uso de linguagem celestial simbólica em Ezequiel:

"[7] Quando eu te extinguir, cobrirei os céus e farei enegrecer as suas estrelas; encobrirei o sol com uma nuvem, e a lua não resplandecerá a sua luz. [8] Por tua causa, vestirei de preto todos os brilhantes luminares do céu e trarei trevas sobre o teu país, diz o Senhor Deus. [9] Afligirei o coração de muitos povos, quando se levar às nações, às terras que não conheceste, a notícia da tua destruição. [10] Farei que muitos povos fiquem pasmados a teu respeito, e os seus reis tremam sobremaneira, quando eu brandir a minha espada ante o seu rosto; estremecerão a cada momento, cada um pela sua vida, no dia da tua queda. [11] Pois assim diz o Senhor Deus: A espada do rei da Babilônia virá contra ti. [12] Farei cair a tua multidão com as esporas dos valentes, que são todos os mais terríveis dos povos; eles destruirão a soberba do Egito, e toda a sua pompa será destruída. [13] Farei perecer todos os seus animais ao longo de muitas águas; pé de homem não as turbará, nem as turbarão unhas de animais. [14] Então, farei assentar as suas águas; e farei correr os seus rios como o azeite, diz o Senhor Deus. [15] Quando eu tornar a terra do Egito em desolação e a terra for destituída de tudo que a enchia, e quando eu ferir a todos os que nela habitam, então, saberão que eu sou o Senhor. [16] Esta é a lamentação que se fará, que farão as filhas das nações; sobre o Egito e toda sua pompa se lamentará, diz o Senhor Deus." (Ezequiel 32:7–16 ARA)

Esse tipo de recurso literário (sol escurecendo, estrelas caindo, lua perdendo o brilho)  é realmente utilizado na Bíblia para descrever juízos históricos, mesmo quando não houve literalmente um colapso cósmico. Portanto, reconheço: o preterista não tira essa ideia inteiramente do nada. Contudo, reconhecer a existência desse padrão literário não implica aceitar que Mateus 24:29 se limite ao ano 70, pois o contexto do discurso de Jesus vai muito além de qualquer juízo local.

Mas alguém pode até sugerir: "Ah, Roneilson, mas embora a linguagem de Mateus seja idêntica à de Ezequiel 32, o versículo 30 mostra Jesus vindo sobre as nuvens." Pois é, mas essa objeção ignora um ponto fundamental: a expressão "vir sobre as nuvens" também é usada na Bíblia para descrever intervenções históricas de Deus, não apenas a vinda literal e final de Cristo. Um exemplo claro disso está no Salmo 18, onde Deus vem em auxílio de Davi, durante a perseguição de Saul, usando exatamente esse mesmo tipo de linguagem celestial:

"[7] Então, a terra se abalou e tremeu; vacilaram também os fundamentos dos montes e se abalaram, porque ele se indignou. [8] Das suas narinas subiu fumaça, e, da sua boca, fogo devorador; dele saíam brasas ardentes. [9] Ele abaixou os céus e desceu, e teve sob os pés densa nuvem. [10] Cavalgava um querubim e voou; sim, voou veloz sobre as asas do vento. [11] Das trevas fez o seu esconderijo, tendas escuras, águas espessas e nuvens do céu eram o seu pavilhão. [12] Do resplendor que adiante dele havia, passaram as suas nuvens, granizo e brasas chamejantes. [13] Trovejou, então, o Senhor nos céus; o Altíssimo fez ouvir a sua voz, granizo e brasas de fogo. [14] Despediu as suas flechas e espalhou os meus inimigos; multiplicou os seus raios e os desbaratou. [15] Então, se viu o leito das águas, e se descobriram os fundamentos do mundo, pela tua repreensão, Senhor, pelo iroso resfolgar das tuas narinas."

E em Isaías 19, descrevendo o juízo de Deus sobre o Egito, o texto afirma que Ele vem da seguinte forma:

"Peso do Egito. Eis que o Senhor, cavalgando sobre uma nuvem ligeira, vem ao Egito; os ídolos do Egito estremecerão diante dele, e o coração dos egípcios se derreterá dentro deles. (Isaías 19:1 ARA)

Resolvendo o problema 

Qualquer pessoa que lê a Bíblia com frequência logo percebe: "Realmente, a linguagem é parecida com a do Antigo Testamento, mas no caso de Mateus 24 o contexto é outro." E é exatamente aqui que está a diferença.

Para começar, o próprio anjo afirma claramente que assim como Jesus subiu, Ele voltará (Atos 1:11). E Jesus subiu literalmente, visivelmente, não de forma simbólica. Se a subida foi literal, a descida também será.

Além disso, a vinda de Cristo está diretamente ligada à ressurreição. E a nossa ressurreição segue o modelo da ressurreição de Cristo (1 Coríntios 15:20–23). E como Cristo ressuscitou? Literalmente, com corpo real e glorificado, não em alegoria. Ou seja: embora a linguagem possa se parecer com textos do Antigo Testamento, o contexto da vinda de Cristo envolve eventos reais, literais e visíveis, totalmente distintos das descrições simbólicas de juízo histórico no Antigo Testamento.

Análise dos textos preteristas 

Mas devemos sempre questionar. De fato, os argumentos acima são claros, porém surge outra questão: como fica a argumentação preterista? É inegegável que os textos do Antigo Testamento são praticamente idênticos aos que descrevem a vinda de Jesus.

Na realidade, os próprios textos simbólicos de juízo no Antigo Testamento, quando aplicados a cidades e nações, sempre têm como pano de fundo algo que aconteceu literalmente. Exatamente: os profetas, em suas expressões poéticas, não inventavam imagens do nada; eles se inspiravam em um evento real e histórico. Por exemplo, quando falam de "escuridão", basta lembrar que em Deuteronômio, descrevendo a manifestação real de Deus aos israelitas no Sinai, está escrito:

" Chegastes e vos pusestes ao pé do monte; e o monte ardia em fogo até ao meio dos céus, com trevas, nuvens e escuridão." (Deuteronômio 4:11)

Eu fiz questão de citar o Salmo 18 justamente para mostrar que se trata de uma poesia construída sobre algo que aconteceu literalmente. Toda a linguagem do salmo reflete, quase como um espelho, o que ocorreu no Sinai.
Por exemplo, o salmo descreve trevas, fumaça, fogo, terremoto e nuvens espessas, exatamente os mesmos elementos presentes em Êxodo 19. Veja o texto de Êxodo:

"[16] Ao amanhecer do terceiro dia, houve trovões, e relâmpagos, e uma espessa nuvem sobre o monte, e mui forte clangor de trombeta, de maneira que todo o povo que estava no arraial se estremeceu. [17] E Moisés levou o povo fora do arraial ao encontro de Deus; e puseram-se ao pé do monte. [18] Todo o monte Sinai fumegava, porque o Senhor descera sobre ele em fogo; a sua fumaça subiu como fumaça de uma fornalha, e todo o monte tremia grandemente." (Êxodo 19:16-18 ARA)

Ou seja, a poesia do Salmo 18 não nasce do nada; ela é moldada a partir de um evento real, visível e histórico que Israel testemunhou: a descida literal de Deus sobre o Sinai.

E se você chegou até aqui, certamente já tem na mente os textos que eu mencionei. E, para amarrar tudo isso de vez, nada melhor do que recorrer ao próprio livro de Joel. Ali nós vemos, de forma muito clara, a mesma cena que aparece em Mateus 24 e também no Êxodo. Joel une tudo isso de maneira harmoniosa e nos ajuda a entender exatamente como os profetas, inspirados por Deus, pensavam e descreviam essas manifestações de juízo:

"[1] Tocai a trombeta em Sião e dai voz de rebate no meu santo monte; perturbem-se todos os moradores da terra, porque o Dia do Senhor vem, já está próximo; [2] dia de escuridade e densas trevas, dia de nuvens e negridão! Como a alva por sobre os montes, assim se difunde um povo grande e poderoso, qual desde o tempo antigo nunca houve, nem depois dele haverá pelos anos adiante, de geração em geração. [3] À frente dele vai fogo devorador, atrás, chama que abrasa; diante dele, a terra é como o jardim do Éden; mas, atrás dele, um deserto assolado. Nada lhe escapa. [4] A sua aparência é como a de cavalos; e, como cavaleiros, assim correm. [5] Estrondeando como carros, vêm, saltando pelos cimos dos montes, crepitando como chamas de fogo que devoram o restolho, como um povo poderoso posto em ordem de combate. [6] Diante deles, tremem os povos; todos os rostos empalidecem. [7] Correm como valentes; como homens de guerra, sobem muros; e cada um vai no seu caminho e não se desvia da sua fileira. [8] Não empurram uns aos outros; cada um segue o seu rumo; arremetem contra lanças e não se detêm no seu caminho. [9] Assaltam a cidade, correm pelos muros, sobem às casas; pelas janelas entram como ladrão. [10] Diante deles, treme a terra, e os céus se abalam; o sol e a lua se escurecem, e as estrelas retiram o seu resplendor. [11] O Senhor levanta a voz diante do seu exército; porque muitíssimo grande é o seu arraial; porque é poderoso quem executa as suas ordens; sim, grande é o Dia do Senhor e mui terrível! Quem o poderá suportar?" (Joel 2:1-11 ARA)

Se até agora isso não ficou claro, vou deixar de um jeito ainda mais simples. Os textos simbólicos e proféticos dos profetas  (que muitos usam como base para interpretar Mateus 24:29) na verdade têm por trás um acontecimento real: a manifestação de Deus no monte Sinai. Lá, ao toque da trombeta, o Senhor apareceu em meio à escuridão e às nuvens diante do povo, e o monte inteiro se abalou. Ou seja, aquilo que os profetas usam em forma simbólica tem origem em um fato literal, e o cenário é praticamente o mesmo da vinda de Jesus, que será em escala universal, não local como foi no Monte Sinai.

Em suma, embora a linguagem de Mateus 24 se pareça com a usada pelos profetas em juízos históricos, ela tem sua origem em um acontecimento real: a manifestação de Deus no Sinai. Os profetas apenas usavam esse evento literal como base para descrever julgamentos locais, mas Jesus aplica o mesmo padrão para falar do desfecho final. Por isso, mesmo que as expressões sejam semelhantes, o contexto é completamente diferente. A vinda do Filho do Homem não se limita ao ano 70, porque segue o modelo da presença real e visível de Deus, agora não para uma nação, mas para o mundo inteiro.

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